domingo, 8 de outubro de 2017

O nascimento de um conto ou como pari ‘Teu Futuro te Condena’


Como vagas ideias literárias de um adolescente se transformaram, mais de quinze anos depois, em um conto publicado em antologia organizada pelo maior escritor brasileiro de terror da atualidade?

Antes de explicar, é bom esclarecer que este texto não tem a pretensão de funcionar como uma espécie de manual. Mas, se ajudar escritores iniciantes a escreverem melhor suas histórias, nada mal, hein!


‘Teu Futuro te Condena’ é um conto escrito ali por 2016. Cheguei a ele a partir de três ideias diferentes, algumas separadas das outras por mais de uma década.


Na minha adolescência, quando me sentia poeta, e não me aventurava pela prosa, propus a mim mesmo dois desafios literários: 1) escrever uma história em segunda pessoa; 2) e outra narrada no futuro.


Por quê? Queria fugir do mais do mesmo, depois de perceber que a esmagadora maioria das histórias são narradas em primeira ou terceira pessoa e no passado ou no presente.


Exemplo 1: “Quando ouvi detalhes das crueldades e derramamentos de sangue que indivíduos ou nações impunham uns aos outros, não pude conter meu sentimento de revolta.” (Frankenstein, de Mary Shelley). Primeira pessoa (eu). Passado.  


Exemplo 2: “Desce o menino a montanha, atravessa o mundo todo, chega ao grande rio, com as mãos recolhe quanta de água lá cabia, volta o mundo atravessar, pelo monte se arrasta, três gotas que lá chegaram, bebeu-as a flor com sede.” (A Maior Flor do Mundo, de José Saramago). Terceira pessoa (ele). Presente.


Voltando ao processo de construção de ‘Teu Futuro te Condena’, muito tempo depois, ali por 2015, 2016, veio a terceira ideia: uma história de profecia autorrealizável, em que o próprio ato de dizer quem alguém será o torna aquilo. Seria uma crítica ao modo como a sociedade lida com a criminalidade. Tenho um projeto de escrever uma antologia de contos sobre violência, segurança, encarceramento, etc., mas isso já é outra história.


Bem, decidi juntar as três ideias na mesma história: imaginei uma cigana, um oráculo ou algo do tipo lendo o futuro de um recém-nascido (“Tu serás um assassino”) e essa profecia faria com que todos o tratassem, desde sempre, como o assassino que a profecia dizia que ele se tornaria. Daí, nasceu ‘Teu Futuro te Condena’.


Que lições tirar disso? Planeje o que vai escrever. Não dependa só da inspiração. Anote e não descarte suas ideias só porque não consegue transformá-las em uma história de imediato. Retorne a elas, de tempos em tempos, para ver se consegue enxergá-las com outros olhos. Proponha-se desafios. Fuja do comum: busque escrever o que ninguém jamais disse ou diga de modo inovador aquilo já repetido tantas vezes. E depois, é só aproveitar as oportunidades que aparecem...


Ah, faltou dizer que não sou escritor de histórias sombrias. Então, para escrever ‘Teu Futuro te Condena’, precisei sair da minha zona de conforto. 

A Antologia Sombria, organizada por André Vianco, e que selecionou este e outros contos será lançado em São Paulo (SP), no dia 28 de outubro de 2017.  Para saber mais, clique aqui.

Até lá, você pode ler o trecho inicial do conto:


"— Serás um assassino — dir-te-ei, recém-nascido, quando teus pais te trouxerem até mim.

Lerei teu futuro, como o de todos os paridos naquela hedionda cidade, em uma porção do meu sangue. Descreverei em detalhes a teus genitores que, com um instrumento perfurocortante de fabricação caseira, vazarás os olhos de uma mulher de cabelos brancos e dela cortarás o pescoço. Ainda permanecerás ao seu lado, vendo-a sangrar em silêncio até a morte."




PIMENTEL, Aldenor. Teu futuro te condena. In: VIANCO, André. Antologia sombria. São Paulo: Empíreo, 2017. 

Para ler, outros textos literários de Aldenor Pimentel, clique aqui.

Para ler resenhas de livros de outros autores de Roraima, acesse: 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Ode a Ana Maria é fantástico

Ode a Ana Maria (2016) é o primeiro romance de Simão Farias. Paraibano e morador de Roraima, o escritor tece uma história de aura nordestina e traços amazônicos, em que a protagonista se encontra com personagens como um coronel do sertão e um xamã.
Trata-se de um romance fantástico sobre conflitos por terra, em que estão em jogo, de um lado, interesses empresariais e, do outro, a vida de moradores de um humilde povoado e o equilíbrio do ecossistema.

Ao ler Ode a Ana Maria, é possível sentir o gosto da poeira a invadir os pulmões. A cada capítulo, o leitor tem a sensação de ser apresentado a um novo personagem, que parece vir com a missão de tirar as certezas que aquele construiu sobre a história até li. No final, fica a impressão de ter vivido um experimento para fazê-lo refletir sobre a vida.

Outras resenhas: 
Entre ‘O Mundo Perdido’ e Sherlock Holmes: um imenso abismo

Órfãos de Haximu e os órfãos de literatura sobre o povo Yanomami



O fato de ser uma obra literária que retrata o povo Yanomami foi o que me instigou a ler o livro infantojuvenil Órfãos de Haximu (2010), de Inês e Maria Lúcia Daflon, com ilustrações de Joãocaré. Sei de raras iniciativas literárias sobre tal povo, ainda mais voltadas a crianças e adolescentes.

Tendo como pano de fundo dois marcos na história, relacionados a conflitos de terra e povos indígenas, ocorridos em Roraima, o Massacre de Haximu e a homologação da Raposa Serra do Sol, o livro conta a história de Daniel, um yanomami, criado em Londres pelo pai inglês, e que, depois de adulto, resolve voltar a Roraima e conhecer sua história: para protegê-lo, o pai o separou da irmã gêmea, após o nascimento. Segundo a cultura daquele povo, somente a menina deveria sobreviver.

A história aborda temas como amor, educação, povos indígenas, justiça, política, meio ambiente e pluralidade cultural. Não me arrependi da leitura. Tive a impressão de que o livro, escrito por duas cariocas, foi pensado para outro público que não o roraimense. Ainda assim, nós que estamos geograficamente mais próximos dos yanomami, mas muitas vezes distantes em outros tantos aspectos, podemos, pela leitura, iniciar esse contato e, quem sabe, nos compreender um pouco mais.

Dentro das limitações do formato, a obra traz uma boa contextualização sobre o tema principal abordado, além de apresentar sobre ele um ponto de vista interessante. O gênero ação de modo mais intenso e que provavelmente agrade o público mais jovem fica para o último capítulo do livro. 

Ao fim, ficou em mim a vontade de ler A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert.

Outras resenhas: 
Entre ‘O Mundo Perdido’ e Sherlock Holmes: um imenso abismo


 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O Homem de Barlovento: um tesouro oculto

Até onde estamos preparados para conviver com o sobrenatural? Essa pergunta abre o texto da contracapa do livro O Homem de Barlovento, de Bruno Garmatz. Mas, ainda que central, a questão acima talvez não seja suficiente para traçar um panorama desejável da obra, que mescla romance e mistério.

Lançado em 2013, O Homem de Barlovento é o primeiro livro de ficção do autor e já foi tema de trabalhos científicos, inclusive uma dissertação de mestrado, publicados nas línguas Portuguesa e Espanhola. Nascido em Ibirubá (RS), Bruno Garmatz mora em Boa Vista desde 1988. É ainda autor do romance Escolhas Erradas (2013) e dos livros-reportagens Conversando com Guillermo (2007) e Monte Roraima – a morada de Makunaima (2013). Conversando com Guillermo já foi adotado como livro de referência no vestibular da Universidade Federal de Roraima.

A história começa com o primeiro encontro de Mauricio e Luisa, romance que o autor retoma nos últimos capítulos. Entre esses dois momentos, a obra relata a experiência mística que teve o protagonista, ali pelo quinto capítulo, e sua aventura para entender o que se passou.

Além do enredo romântico e do tom espiritualista, outro elemento marca a narrativa: o turismo. O enredo viaja por Goiás, Boa Vista e Venezuela, com profundas descrições de atrativos históricos, culturais e turísticos. Tanto que o leitor pode até se questionar se os lugares paradisíacos são o cenário da história ou é a história um pretexto para as deslumbradas descrições. Talvez esta seja a mais clara manifestação na obra do lado jornalista do autor. Finda a leitura, dificilmente a pessoa não quererá conhecer pessoalmente as belezas retratadas, como agora alimento o desejo de viver a experiência de contato com a neve venezuelana.

Minha indicação? A mesma do prefaciador da obra: ‘Leia este livro do início ao fim’. Do contrário, dificilmente entenderá o porquê do cacau na capa ou qual a relação entre a história de amor dos protagonistas e o inusitado encontro de um deles com o Homem de Barlovento.

GARMATZ, Bruno. O homem de Barlovento. Curitiba: Artes&Textos, 2013.

Obs.: um exemplar de O homem de Barlovento foi doado pelo autor a este blogueiro. Agora, após a leitura e a presente resenha, a obra deve compor o acervo do Espaço de Leitura e Pesquisa em Artes Aldenor Pimentel, do Espaço Cultural Harmonia e Ritmo, em Boa Vista (RR).

Leia outras resenhas: