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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Por que demorei tanto a pôr os olhos diante de Ensaio sobre a cegueira?

Confesso que cheguei a 'Ensaio sobre a cegueira' com receio de não gostar. Afinal, depois de me decepcionar com clássicos empolados, acreditava que a afamada pontuação peculiar de José Saramago seria demais para alguém como eu, que não está muito disposto, no momento, a leituras pouco ágeis.

Minha persistência valeu a pena: foi uma das minhas melhores leituras da década. Talvez a melhor. Saramago é muito bom. Não à toa é o único escritor de Língua Portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.
 
A premissa do livro, por si, só já é uma sacada incrível: e se ficássemos todos cegos? Aliás, Saramago é o mestre da alegoria. Dessa simples fabulação, o autor nos provoca a pensar a condição humana: até onde somos capazes de ir para sobreviver? 
A história em si nem tem lá tantas cenas dignas de filmes de ação. Nem precisa: Saramago nos cativa com uma narrativa que faz o leitor querer sempre saber o que vem em seguida. 

E entre uma cena e outra, o autor ainda nos brinda com ditados populares ou transgressões a eles. É fácil se sentir em casa, como que ouvindo nossos avós conversando na varanda. 

E a tal pontuação peculiar de Saramago? Não tira a fluidez da leitura? Bem, de fato, uma hora aqui, outra ali, é difícil saber quem disse o quê. Com o tempo, o leitor se acostuma e esse efeito se ameniza. Na real, às vezes, nem faz tanta diferença pra história quem disse o quê. É como naquelas conversas de bar em que todo mundo fala ao mesmo tempo: ninguém é dono do que diz e todos são meio que (ir)responsáveis por tudo que é dito. 

Próxima parada: do mesmo autor, O Evangelho segundo Jesus Cristo, se Deus quiser.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Resenha: A cor do dinheiro da vovó, de Cristino Wapichana

Educação financeira a partir da visão de uma anciã indígena analfabeta. A proposta do livro infantojuvenil ‘A cor do dinheiro da vovó’, de Cristino Wapichana, gera, ao mesmo tempo, estranheza e curiosidade. E surpreende: para mim, é o melhor texto do autor publicado até o momento. 

‘A cor do dinheiro da vovó’ vai além de seu objetivo didático. Aliás, quase toda a obra nos faz esquecer tal pretenso didatismo. De suas páginas emanam poesia, como “mãos delicadas, que mais pareciam um par de asas de passarinho guardando um sorriso amável”. 

E também a escolha por retratar o povo wapichana no contexto urbano é um diferencial, em um cenário com predominância de livros, escritos por autores indígenas ou não, com personagens indígenas sem contato com os karaiowá (estrangeiros, não indígenas). E, assim, em ‘A cor do dinheiro da vovó’, vemos os wapichana em um mundo onde há escolas, cercas, igrejas, comércio, banco, dinheiro. Eles aparecem como estudantes, aposentados, servidores públicos, educadores, agentes de saúde, etc. Esse foi o aspecto da obra que mais me cativou.

Pode-se questionar, e confesso que discretamente senti algo me apertar o peito: como trabalhar educação financeira a partir da visão indígena, se foi a ganância pelo dinheiro que levou os colonizadores a violentarem e dizimarem os povos originários? 

Bem, ainda que não seja o foco, a ferida aberta por esse contato forçado e truculento pode ser encontrada no livro: “Os estrangeiros dominaram nosso povo, apossaram-se de nossas terras e nos obrigaram a servi-los. Carregamos as marcas e o peso dessa guerra até hoje em nossa cultura”. 

Mas a escolha de Cristino Wapichana é outra: pela voz da avó de Pymid, o leitor viaja pelas diferentes versões que as cédulas e moedas brasileiras tiveram ao longo da história.

As ilustrações de Alyne Dallacqua também são incríveis. Os traços físicos dos personagens wapichana, bem como a pintura corporal, a iconografia e as indumentárias típicas retratadas, são tão convincentes que fizeram eu me sentir em casa. Provavelmente resultam de uma competente pesquisa de imagens.

Por fim, com ‘A cor do dinheiro da vovó’, pode-se (re)aprender que há muitas formas de saber e todas elas devem ser valorizadas. Afinal, quem não se encantaria ao, debaixo de uma árvore, ver o jeito mágico de contar o mundo daquela que não sabia calcular como os estrangeiros ensinavam, mas sempre narrava como ninguém histórias magistrais de seu povo?

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sábado, 3 de fevereiro de 2018

Resenha: Dicionário de Roraimês (Júnior Brasil)

Sabe quando você tem uma ideia que acha incrível, anota algumas coisas para encaminhar o projeto e, tempo depois, vem outra pessoa e faz? Pois é! Foi a sensação que tive em relação ao Dicionário de Roraimês, de Júnior Brasil, publicado em 2016, pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura.

Confesso: bem que queria ser o realizador desse projeto, mas não sou nem mesmo o primeiro a idealizá-lo. Foi assim: em 2007, conheci o Dicionário de Termos Populares do Acre, de Mauro Modesto, publicado no ano anterior. Mas, na época, Júnior Brasil já havia tido a ideia de escrever o Dicionário de Roraimês.

Isso mesmo! Segundo a apresentação deste livro, o autor roraimense teve o lampejo em 1993, quando conheceu o dicionário regional, em Salvador (BA). Aliás, quando eu soube que o projeto roraimense havia sido aprovado na Lei de Incentivo já fiquei feliz e torci desde ali para que saísse logo do papel, o que se deu anos depois.

Foto: site Eu Sou de Roraima
Com hilárias ilustrações de Kenedy, o dicionário traz expressões que são a nossa cara, com explicações e exemplos em tom coloquial, sem pretensões filológicas. Diversão garantida, conforme as expectativas reveladas pelo próprio autor, na apresentação da obra!
‘Maceta’, ‘caboco’, ‘carapanã’, ‘até o talo’ são algumas das palavras e expressões registradas e devidamente explicadas em Dicionário de Roraimês. Além disso, deparei-me com várias novidades, entre elas diversas e criativas formas de se referir às nossas “vergonhas” (como diria Caminha), masculinas e femininas.

O próprio Júnior Brasil informa também, na apresentação do livro, que muita coisa ficou de fora de sua “garimpagem”, que foi de suas lembranças às conversas ocasionais e “forçadas” com o “pessoal das antigas”, de acordo com ele mesmo. De fora, também ficaram “modismos de tribos urbanas”, como “Agora bem aí!”, e expressões usadas aqui, porém mais a cara de outras regiões, como Pai d’égua.


Dicionário de Roraimês precisava mesmo ser publicado. Concorda, parente?

BRASIL, Júnior. Dicionário de Roraimês. Boa Vista: Ioris, 2016.

Para ler outras resenhas de livros de Roraima, acesse:

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Viagem ao Centro da Terra e a cultura indígena Macuxi

Viagem ao Centro da Terra, publicado em 1884, por Júlio Verne, é um marco da literatura de ficção científica. Nele, o Prof. Lindenbrok e seu sobrinho Axel chegam ao centro do planeta pela cratera de um vulcão.

A teoria da Terra Oca, defendida séculos atrás por estudiosos, mas hoje refutada pela Ciência, está presente como mito em diferentes culturas. Segundo vários textos facilmente encontráveis na internet, o povo indígena Macuxi é um deles.

Os Macuxi teriam sido os guardiões do submundo, até serem punidos pelos gigantes do interior da Terra: aqueles não teriam conseguido evitar que os exploradores europeus invadissem as cavernas da Amazônia em busca de ouro e diamantes, no começo do século XX.

Nas entranhas da Terra, segundo esses relatos, além dos gigantes, haveria lanternas, pedras e riachos de ebulição, árvores, frutas e peixes gigantes. Para chegar lá, era preciso caminhar durante semanas, além de ser possível flutuar pelo caminho.


Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne, não retrata nada disso. Mas tem oceano, ilha e nuvens subterrâneos, além de dinossauros, outros animais pré-históricos e homens das cavernas. Provavelmente, o autor não teve contato com histórias Macuxi, restritas à tradição oral. Nem por isso deixa de ser um excelente livro. Não à toa entrou para a história da literatura mundial.

VERNE, Júlio. Viagem ao centro da terra. São Paulo: Martin Claret, 2004.

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sábado, 18 de novembro de 2017

Patachu, o personagem que inspirou o Pequeno Príncipe

Um garoto puro a fazer perguntas desconcertantes a um adulto ocupado com as coisas práticas da vida, além de referências a estrelas, carneiro, caixa, focinheira, rosa, raposa, deserto e poço. De que livro francês se trata? Provavelmente, você pensou em O Pequeno Príncipe (1942), de Saint-Exupéry. Mas os mesmos elementos são encontrados em Patachu, Pequeno Menino (1929), de Tristan Derème, morto em 1941, personagem não tão ilustre quanto seu “conterrâneo”, um dos mais famosos da literatura infantojuvenil.

Essas coincidências levaram o escritor e ensaísta francês Denis Boissier a propor a hipótese de que Patachu inspirou a criação do Pequeno Príncipe. As histórias de Patachu (Patachou, no original, em francês) foram publicadas em 1927 na revista Le Divan, mais tarde no jornal Le Figaro e em forma de livro em 1929. No Brasil, foram editados recentemente os livros O Pequeno Patachu e Mais Histórias do Pequeno Patachu, pela Editora Piu.

O próprio Denis Boissier afirma que não há prova conclusiva de que sua hipótese esteja correta. Ainda que esteja, isso não faz de O Pequeno Príncipe um plágio. Exupéry, ao se inspirar em Derème, se o fez, criou uma obra única, que, não por acaso até hoje encanta crianças e pessoas mais velhas, entre elas, candidatas a miss.

Patachu é um garoto francês de seis anos, o Pequeno Príncipe é um extraterrestre, príncipe e única pessoa a morar em seu planeta distante e desconhecido. Patachu mora no interior da França, o Pequeno Príncipe visita planetas. Patachu interage com o tio, o Pequeno Príncipe conversa com um aviador, mas também com flores, uma cobra e uma raposa, que lhe diz: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.


Quer saber se Patachu inspirou o Pequeno Príncipe? Leia-os. Mas quer saber mesmo? Espero que, ao final, sua única certeza seja a de que esses dois pequenos são gigantes, por fazerem você se lembrar da criança que já foi um dia.

Para ler O Pequeno Príncipe (em português), em domínio público desde 2015, acesse aqui.

É possível adquirir os livros do Pequeno Patachu no site da Editora Piu.

Para ler o artigo 'Saint-Exupéry e Tristan Derème: a origem do pequeno príncipe' (em português), de Denis Boissier, acesse aqui.

Para ler outras resenhas de livros infantojuvenis, acesse:

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Ode a Ana Maria é fantástico

Ode a Ana Maria (2016) é o primeiro romance de Simão Farias. Paraibano e morador de Roraima, o escritor tece uma história de aura nordestina e traços amazônicos, em que a protagonista se encontra com personagens como um coronel do sertão e um xamã.
Trata-se de um romance fantástico sobre conflitos por terra, em que estão em jogo, de um lado, interesses empresariais e, do outro, a vida de moradores de um humilde povoado e o equilíbrio do ecossistema.

Ao ler Ode a Ana Maria, é possível sentir o gosto da poeira a invadir os pulmões. A cada capítulo, o leitor tem a sensação de ser apresentado a um novo personagem, que parece vir com a missão de tirar as certezas que aquele construiu sobre a história até li. No final, fica a impressão de ter vivido um experimento para fazê-lo refletir sobre a vida.

Outras resenhas: 
Entre ‘O Mundo Perdido’ e Sherlock Holmes: um imenso abismo

Órfãos de Haximu e os órfãos de literatura sobre o povo Yanomami



O fato de ser uma obra literária que retrata o povo Yanomami foi o que me instigou a ler o livro infantojuvenil Órfãos de Haximu (2010), de Inês e Maria Lúcia Daflon, com ilustrações de Joãocaré. Sei de raras iniciativas literárias sobre tal povo, ainda mais voltadas a crianças e adolescentes.

Tendo como pano de fundo dois marcos na história, relacionados a conflitos de terra e povos indígenas, ocorridos em Roraima, o Massacre de Haximu e a homologação da Raposa Serra do Sol, o livro conta a história de Daniel, um yanomami, criado em Londres pelo pai inglês, e que, depois de adulto, resolve voltar a Roraima e conhecer sua história: para protegê-lo, o pai o separou da irmã gêmea, após o nascimento. Segundo a cultura daquele povo, somente a menina deveria sobreviver.

A história aborda temas como amor, educação, povos indígenas, justiça, política, meio ambiente e pluralidade cultural. Não me arrependi da leitura. Tive a impressão de que o livro, escrito por duas cariocas, foi pensado para outro público que não o roraimense. Ainda assim, nós que estamos geograficamente mais próximos dos yanomami, mas muitas vezes distantes em outros tantos aspectos, podemos, pela leitura, iniciar esse contato e, quem sabe, nos compreender um pouco mais.

Dentro das limitações do formato, a obra traz uma boa contextualização sobre o tema principal abordado, além de apresentar sobre ele um ponto de vista interessante. O gênero ação de modo mais intenso e que provavelmente agrade o público mais jovem fica para o último capítulo do livro. 

Ao fim, ficou em mim a vontade de ler A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert.

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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O Homem de Barlovento: um tesouro oculto

Até onde estamos preparados para conviver com o sobrenatural? Essa pergunta abre o texto da contracapa do livro O Homem de Barlovento, de Bruno Garmatz. Mas, ainda que central, a questão acima talvez não seja suficiente para traçar um panorama desejável da obra, que mescla romance e mistério.

Lançado em 2013, O Homem de Barlovento é o primeiro livro de ficção do autor e já foi tema de trabalhos científicos, inclusive uma dissertação de mestrado, publicados nas línguas Portuguesa e Espanhola. Nascido em Ibirubá (RS), Bruno Garmatz mora em Boa Vista desde 1988. É ainda autor do romance Escolhas Erradas (2013) e dos livros-reportagens Conversando com Guillermo (2007) e Monte Roraima – a morada de Makunaima (2013). Conversando com Guillermo já foi adotado como livro de referência no vestibular da Universidade Federal de Roraima.

A história começa com o primeiro encontro de Mauricio e Luisa, romance que o autor retoma nos últimos capítulos. Entre esses dois momentos, a obra relata a experiência mística que teve o protagonista, ali pelo quinto capítulo, e sua aventura para entender o que se passou.

Além do enredo romântico e do tom espiritualista, outro elemento marca a narrativa: o turismo. O enredo viaja por Goiás, Boa Vista e Venezuela, com profundas descrições de atrativos históricos, culturais e turísticos. Tanto que o leitor pode até se questionar se os lugares paradisíacos são o cenário da história ou é a história um pretexto para as deslumbradas descrições. Talvez esta seja a mais clara manifestação na obra do lado jornalista do autor. Finda a leitura, dificilmente a pessoa não quererá conhecer pessoalmente as belezas retratadas, como agora alimento o desejo de viver a experiência de contato com a neve venezuelana.

Minha indicação? A mesma do prefaciador da obra: ‘Leia este livro do início ao fim’. Do contrário, dificilmente entenderá o porquê do cacau na capa ou qual a relação entre a história de amor dos protagonistas e o inusitado encontro de um deles com o Homem de Barlovento.

GARMATZ, Bruno. O homem de Barlovento. Curitiba: Artes&Textos, 2013.

Obs.: um exemplar de O homem de Barlovento foi doado pelo autor a este blogueiro. Agora, após a leitura e a presente resenha, a obra deve compor o acervo do Espaço de Leitura e Pesquisa em Artes Aldenor Pimentel, do Espaço Cultural Harmonia e Ritmo, em Boa Vista (RR).

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