quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Receita no Verso, a mais antiga publicação literária periódica em atividade em Roraima

O fanzine ‘Receita no Verso’ é provavelmente a publicação literária periódica com mais tempo de vida em Roraima. Criado em 2012 pelo escritor e poeta Marcelo Perez, o fanzine publicou até agora mais de 300 textos, entre poemas, contos, crônicas e artes visuais. Nesses seis anos, além de textos do próprio Marcelo, foram cerca de 50 colaboradores, de Leminski a Bukowiski, de Eli Macuxi a Agda Santos.

Como ideia, Receita no Verso surgiu em uma oficina literária e se tornou projeto de estágio de Marcelo, na época estudante de graduação em Letras/Literatura da UFRR. Marcelo Perez é o editor, diagramador e designer da publicação, o que inclui recortar, desenhar e colar gravuras no papel. São cerca de 200 exemplares por edição, distribuídos gratuitamente.

O fanzine tem 8 páginas: é uma folha de papel A4 xerocada e dobrada em quatro partes. Mas, ainda que pequeno, não é um tipo de leitura possível de se fazer de uma hora para outra: é preciso ler várias vezes, degustando cada verso da receita.


Receita no Verso: edição de maio de 2012.
Leia também:
Pela primeira vez, Roraima é finalista do mais importante prêmio da literatura brasileira
Gabriel Alencar: promessa literária que já começa a se cumprir

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Gabriel Alencar: promessa literária que já começa a se cumprir

Imagine receber dois prêmios no primeiro concurso literário em que se inscreveu. Imagine ainda, às vésperas de se inscrever, não ter um dos textos prontos e se ver obrigado a pesquisar na internet as características que um conto deve ter. Pare de imaginar: esse talento existe e se chama Gabriel Alencar, primeiro lugar na categoria Poesia e terceiro na categoria Conto, do Concurso Literário Aldenor Pimentel (2016), restrito a autores de Roraima.

Fonte: acervo pessoal (Gabriel Alencar)
Não para por aí: além disso, no ano seguinte, ele ficou em segundo lugar na categoria Conto do mesmo concurso, agora denominado Concurso Literário Internacional Palavradeiros. Dessa vez, só não voltou a ser premiado em Poesia porque, nesta edição, a categoria foi exclusiva para estudantes de ensino fundamental e médio de Roraima. Graduado em Relações Internacionais, atualmente, Gabriel cursa Mestrado em Sociedade e Fronteiras.

Gabriel Alencar era uma promessa. Mas, passado pouco mais de um ano de sua “revelação”, já mostra a que veio. Ficou em 10º lugar no III Concurso Cultural de Microcontos da Biblioteca do IFSP (Araraquara), categoria “Humor”, e teve vários contos e poemas publicados em sites literários.

Músico e escritor, aventura-se na ficção científica, fantasia, drama e humor. Aliás, seus textos dialogam como ninguém com a nova geração de um modo que nenhum dos renomados escritores do Estado conseguem. Se quiser, Gabriel Alencar será um grande nome da literatura de Roraima, para a nossa alegria!

Obs.: O conto Corrida Noturna e o poema Calo no Pé, de Gabriel Alencar, podem ser lidos na antologia do II Concurso Literário Internacional Palavradeiros, que pode ser baixada gratuitamente clicando aqui

Leia também:

Para ler resenhas de livros de Roraima, acesse:

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Resenha: Dicionário de Roraimês (Júnior Brasil)

Sabe quando você tem uma ideia que acha incrível, anota algumas coisas para encaminhar o projeto e, tempo depois, vem outra pessoa e faz? Pois é! Foi a sensação que tive em relação ao Dicionário de Roraimês, de Júnior Brasil, publicado em 2016, pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura.

Confesso: bem que queria ser o realizador desse projeto, mas não sou nem mesmo o primeiro a idealizá-lo. Foi assim: em 2007, conheci o Dicionário de Termos Populares do Acre, de Mauro Modesto, publicado no ano anterior. Mas, na época, Júnior Brasil já havia tido a ideia de escrever o Dicionário de Roraimês.

Isso mesmo! Segundo a apresentação deste livro, o autor roraimense teve o lampejo em 1993, quando conheceu o dicionário regional, em Salvador (BA). Aliás, quando eu soube que o projeto roraimense havia sido aprovado na Lei de Incentivo já fiquei feliz e torci desde ali para que saísse logo do papel, o que se deu anos depois.

Foto: site Eu Sou de Roraima
Com hilárias ilustrações de Kenedy, o dicionário traz expressões que são a nossa cara, com explicações e exemplos em tom coloquial, sem pretensões filológicas. Diversão garantida, conforme as expectativas reveladas pelo próprio autor, na apresentação da obra!
‘Maceta’, ‘caboco’, ‘carapanã’, ‘até o talo’ são algumas das palavras e expressões registradas e devidamente explicadas em Dicionário de Roraimês. Além disso, deparei-me com várias novidades, entre elas diversas e criativas formas de se referir às nossas “vergonhas” (como diria Caminha), masculinas e femininas.

O próprio Júnior Brasil informa também, na apresentação do livro, que muita coisa ficou de fora de sua “garimpagem”, que foi de suas lembranças às conversas ocasionais e “forçadas” com o “pessoal das antigas”, de acordo com ele mesmo. De fora, também ficaram “modismos de tribos urbanas”, como “Agora bem aí!”, e expressões usadas aqui, porém mais a cara de outras regiões, como Pai d’égua.


Dicionário de Roraimês precisava mesmo ser publicado. Concorda, parente?

BRASIL, Júnior. Dicionário de Roraimês. Boa Vista: Ioris, 2016.

Para ler outras resenhas de livros de Roraima, acesse:

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Literatura de Roraima é destaque em mapeamento da produção independente brasileira

Informações sobre poetas e escritores de Roraima podem ser encontradas na página do mapeamento da produção gráfica e literária independente no Brasil. Entre os dados que on-line estão os dos seguintes autores: Aldenor Pimentel, Devair Fiorotti, Eli Macuxi e Ricardo Dantas. Está ainda prevista a divulgação de informações sobre nomes como Eliakin Rufino, George Farias, Jaime Brasil, Roberto Mibielli e Sony Ferseck.

O poeta Devair Fiorotti foi o primeiro autor
de Roraima a ser destaque no mapeamento.
O mapeamento é a primeira etapa de trabalhos da e-cêntrica, iniciativa que busca alternativas para a circulação da produção gráfica e literária independente no País. Entre os dados disponíveis estão: publicações, biografia do artista, canais de divulgação e contato.

A primeira etapa do levantamento encerrou no primeiro semestre de 2017, mas a coleta de dados continua. Foram mapeados autores, editoras e coletivos. O mapeamento é coordenado pela Casa da Cultura Digital (GO), com o apoio da Lei Goyazes.

Os interessados podem fornecer informações ao mapeamento neste link.

Leia também:

Para ler resenhas de livros de Roraima, acesse:

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Viagem ao Centro da Terra e a cultura indígena Macuxi

Viagem ao Centro da Terra, publicado em 1884, por Júlio Verne, é um marco da literatura de ficção científica. Nele, o Prof. Lindenbrok e seu sobrinho Axel chegam ao centro do planeta pela cratera de um vulcão.

A teoria da Terra Oca, defendida séculos atrás por estudiosos, mas hoje refutada pela Ciência, está presente como mito em diferentes culturas. Segundo vários textos facilmente encontráveis na internet, o povo indígena Macuxi é um deles.

Os Macuxi teriam sido os guardiões do submundo, até serem punidos pelos gigantes do interior da Terra: aqueles não teriam conseguido evitar que os exploradores europeus invadissem as cavernas da Amazônia em busca de ouro e diamantes, no começo do século XX.

Nas entranhas da Terra, segundo esses relatos, além dos gigantes, haveria lanternas, pedras e riachos de ebulição, árvores, frutas e peixes gigantes. Para chegar lá, era preciso caminhar durante semanas, além de ser possível flutuar pelo caminho.


Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne, não retrata nada disso. Mas tem oceano, ilha e nuvens subterrâneos, além de dinossauros, outros animais pré-históricos e homens das cavernas. Provavelmente, o autor não teve contato com histórias Macuxi, restritas à tradição oral. Nem por isso deixa de ser um excelente livro. Não à toa entrou para a história da literatura mundial.

VERNE, Júlio. Viagem ao centro da terra. São Paulo: Martin Claret, 2004.

Para ler outras resenhas, acesse:

sábado, 18 de novembro de 2017

Patachu, o personagem que inspirou o Pequeno Príncipe

Um garoto puro a fazer perguntas desconcertantes a um adulto ocupado com as coisas práticas da vida, além de referências a estrelas, carneiro, caixa, focinheira, rosa, raposa, deserto e poço. De que livro francês se trata? Provavelmente, você pensou em O Pequeno Príncipe (1942), de Saint-Exupéry. Mas os mesmos elementos são encontrados em Patachu, Pequeno Menino (1929), de Tristan Derème, morto em 1941, personagem não tão ilustre quanto seu “conterrâneo”, um dos mais famosos da literatura infantojuvenil.

Essas coincidências levaram o escritor e ensaísta francês Denis Boissier a propor a hipótese de que Patachu inspirou a criação do Pequeno Príncipe. As histórias de Patachu (Patachou, no original, em francês) foram publicadas em 1927 na revista Le Divan, mais tarde no jornal Le Figaro e em forma de livro em 1929. No Brasil, foram editados recentemente os livros O Pequeno Patachu e Mais Histórias do Pequeno Patachu, pela Editora Piu.

O próprio Denis Boissier afirma que não há prova conclusiva de que sua hipótese esteja correta. Ainda que esteja, isso não faz de O Pequeno Príncipe um plágio. Exupéry, ao se inspirar em Derème, se o fez, criou uma obra única, que, não por acaso até hoje encanta crianças e pessoas mais velhas, entre elas, candidatas a miss.

Patachu é um garoto francês de seis anos, o Pequeno Príncipe é um extraterrestre, príncipe e única pessoa a morar em seu planeta distante e desconhecido. Patachu mora no interior da França, o Pequeno Príncipe visita planetas. Patachu interage com o tio, o Pequeno Príncipe conversa com um aviador, mas também com flores, uma cobra e uma raposa, que lhe diz: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.


Quer saber se Patachu inspirou o Pequeno Príncipe? Leia-os. Mas quer saber mesmo? Espero que, ao final, sua única certeza seja a de que esses dois pequenos são gigantes, por fazerem você se lembrar da criança que já foi um dia.

Para ler O Pequeno Príncipe (em português), em domínio público desde 2015, acesse aqui.

É possível adquirir os livros do Pequeno Patachu no site da Editora Piu.

Para ler o artigo 'Saint-Exupéry e Tristan Derème: a origem do pequeno príncipe' (em português), de Denis Boissier, acesse aqui.

Para ler outras resenhas de livros infantojuvenis, acesse:

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Conselhos para uma Boa Vista da cultura

Quando Boa Vista aderiu ao Sistema Nacional de Cultura, em dezembro de 2012, já na Gestão Teresa Surita, o município comprometia-se ali, entre outras medidas, a criar o Conselho Municipal de Políticas Culturais. Sem ele e sem um fundo e um plano de cultura, o município não pode receber recursos do Fundo Nacional de Cultura. Com isso, perdemos todos.

Todavia, não basta a criação e o funcionamento de um conselho de qualquer jeito. É preciso que esse mecanismo seja criado e lhe sejam proporcionadas condições para que cumpra seu papel: a definição de políticas públicas para a cultura de Boa Vista, com efetiva participação da sociedade civil.

É necessário aprender com os erros e acertos de conselhos criados em outras esferas da administração pública e unidades federativas. Um formato interessante e que poderia ser adequado à realidade local é o do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC), que, além da representação governamental, tem 17 representantes da sociedade civil, dos segmentos artísticos, de áreas técnicas, como arquitetura e urbanismo, e de cultura e povos tradicionais.

Além disso, é fundamental que o conselho seja deliberativo e paritário, com poder de decisão e mesmo número de vagas distribuídas entre o governo e a sociedade civil. Os representantes desta devem ser eleitos pela própria população. Da mesma forma, os representantes governamentais devem ser nomeados para tanto por terem perfil de gestão no âmbito da cultura, com experiência em política participativa e abertura para o diálogo.

Não há mais espaço para conselhos decorativos, que somente chancelam as decisões do executivo. Comum entre as décadas de 60 e 80 do século passado, outra composição a ser evitada é o conselho de notáveis, personalidades individuais de destaque na vida intelectual e artística, mas que, segundo Lia Calabre, “provoca um significativo distanciamento entre as reais necessidades e demandas do conjunto da comunidade e os projetos de cultura submetidos à apreciação”. Doutora em História Social, Lia Calabre já foi presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Boa Vista poderia ainda se inspirar no CNPC e adotar os colegiados setoriais, órgãos cuja competência é discutir e acompanhar as políticas públicas de cada um dos segmentos do conselho nacional. Cada colegiado é formado por representantes governamentais e do respectivo segmento, o que amplia a participação da sociedade civil e garante um espaço de debate qualificado e especializado sobre os diferentes segmentos artístico-culturais.

Por fim, um dispositivo a se levar em consideração é a alternância na presidência do conselho entre representantes do governo e da sociedade civil, inciativa bem-sucedida em órgãos colegiados como o Conselho Nacional de Juventude.

Qualquer que seja o formato do conselho de cultura de Boa Vista, este deve ser fruto de um amplo debate com a participação efetiva da sociedade civil. A contribuição histórica dada recentemente pelos militantes da cultura na audiência pública na Câmara Municipal sobre o orçamento de Boa Vista é uma prova da força, da disposição e da qualificada contribuição que estes podem dar à definição de políticas culturais do município.