Mostrando postagens com marcador Makunaima. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Makunaima. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 26 de março de 2020

Panton Pia': a história do Makunaima (Clemente Flores; Devair Fiorotti)

FLORES, Clemente. FIOROTTI, Devair. Panton Pia': a história do MakunaimaBoa Vista: Wei, 2019.


Sinopse 
Histórias de Makunaima. 

Ilustração
Mário Flores

Informações complementares 
Livre bilíngue: Português e Taurepang.

Veja também
Obras literárias de Roraima: levantamento inicial
Panton Pia': a história do Timbó (Devair Fiorotti e Clemente Flores)
Urihi: nossa terra, nossa floresta

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Macunaíma, de Mário de Andrade X Makunaíma, de Theodor Koch-Grünberg


Mário de Andrade sempre admitiu que a maior inspiração para Macunaíma, publicado em 1928, foi o mito indígena Makunaíma, com o qual o romancista teve contato por meio do segundo tomo da obra do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg ‘Do Roraima ao Orinoco’, Mitos e lendas dos índios Taulipáng e Arekuna, publicado em alemão em 1924.

Este texto pretende tensionar a construção do personagem Macunaíma, por Mário de Andrade, com o relato de Koch-Grünberg sobre o mito indígena. Não é minha intenção comparar o romance ficcional com a visão atual dos povos indígenas de Roraima sobre Makunaima, que também é compartilhado por outros povos indígenas da região do Monte Roraima (Venezuela e Guiana).
Vamos lá: entendo que, em Macunaíma, Mário de Andrade captou bem a moralidade de Makunaíma, que difere da moralidade cristã ocidental. E aí me parece estar a grande sacada do livro. Macunaíma é o herói sem nenhum caráter, o que não significa que é mau caráter. Portanto, não é vilão. Trata-se de um anti-herói, com seus desvios morais comuns a um ser um humano, em nada parecido com os heróis nobres, altruístas e integralmente virtuosos que a narrativa ocidental perpetuou.

Makunaíma engana a família para ter relações sexuais com a cunhada, passagem também encontrada no livro de Mário de Andrade. Além disso, em Koch-Grünberg, se lê um trecho em que Makunaíma trolla o irmão, dando uma fruta para este comer, após aquele ter passado o fruto no próprio pênis. Uma clássica traquinagem, molecagem, zoeira...

Em contraposição a isso, aponto dois aspectos que me desagradam no Macaunaíma de Mário de Andrade. Primeiro: a hipersexualização do personagem. Segundo: o recorrente ‘ai, que preguiça!’.

Bem, como se pôde ver acima, Makunaíma, em Koch-Grünberg, tem, sim, uma moral sexual, digamos, mais frouxa, se comparada à moral ocidental. No relato do etnólogo alemão, assim como em Mário de Andrade, Macunaíma/Makunaíma não se arrepende ou se sente culpado por cobiçar (e acasalar com) a mulher do próximo. No caso, seu irmão.

Há também outro trecho em Do Roraima ao Orinoco em que Makunaíma e os irmãos são rejeitados por mulher com quem queriam ter relações sexuais e, em razão disso, a castigam, bem como punem o escolhido da moça.

Das 12 histórias de Makunaíma no livro de Koch-Grünberg, essas são as duas únicas que fazem referência ao desejo ou à pratica sexual daquele.

Entretanto, creio que em Mário de Andrade, a libido de Macunaíma foi hiperdimensionada, deixando a impressão de que o personagem a todo tempo pensa e faz ou tenta fazer sexo com toda ou quase toda mulher com quem encontra.

Em contraponto, em Koch-Grünberg, há histórias sem conotação sexual alguma em que Makunaíma interage com mulheres. Em ‘Feitos de Makunaíma’, em Do Roraima ao Orinoco, por exemplo, Makunaíma, transforma homens e mulheres em pedras, sem qualquer referência à pratica sexual.

Outro aspecto em Macunaíma, de Mário de Andrade, o que mais me incomodou, foi a frase ‘ai, que preguiça’, repetida 15 vezes pelo protagonista ao longo do romance. Depois de mais de seis anos, sem falar, o primeiro dito de Macunaíma é: “ai, que preguiça”. Macunaíma tem preguiça de falar, trabalhar e, paradoxalmente, até de “brincar”, ou seja, fazer sexo! Em Koch-Grünberg, não se encontra tal interjeição. Trata-se de criação de Mário de Andrade.

Não creio que este tenha sido o propósito de Mário de Andrade, mas esse aspecto inevitavelmente reforça o estereótipo do índio como preguiçoso por natureza. Entretanto, nas narrativas de Koch-Grünberg e do próprio Mário de Andrade, é possível ver Makunaíma/Macunaíma cortar árvores, pescar, construir casa, caçar e fazer tantas coisas que não condizem com uma pessoa preguiçosa.

Acho que é isso!

Leia também
Roraima: inspiração e cenário de livros ficcionais de escritores não roraimenses
Entre ‘O Mundo Perdido’ e Sherlock Holmes: um imenso abismo
História de livro ambientado no Brasil é a inspiração de Jurassic Park

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Roraima: inspiração e cenário de livros ficcionais de escritores não roraimenses

Neste blog, já resenhamos obras literárias cujas histórias se passam em Roraima escritas por autores que não nasceram nem moram ou moraram no Estado. 

Ainda que a obra não cite textualmente a montanha, o Monte Roraima é a inspiração e o cenário do infantojuvenil ‘O Mundo Perdido’, do escritor britânico Arthur Conan Doyle. Outro exemplo é o também infantojuvenil ‘Órfãos de Haximu’, de (2010), das autoras cariocas Inês e Maria Lúcia Daflon, sobre o povo Yanomami. 

Conheça algumas outras obras escritas por não roraimenses também inspiradas e/ou ambientadas em Roraima: 

Macunaíma (1928), de Mário de Andrade 
Macunaíma, livro de Mário de Andrade publicado em 1928, é considerado um dos principais romances modernistas. A obra é uma rapsódia sobre a formação do Brasil, em que vários elementos nacionais se cruzam numa narrativa que conta a história de Macunaíma, o "herói sem nenhum caráter".

A principal inspiração do romance é o segundo de cinco volumes do livro, publicado em alemão em 1916, ‘Do Roraima ao Orinoco’, em que o etnólogo Theodor Koch-Grünberg, transcreve histórias narradas por indígenas dos povos Arekuná e Taulipanque (Taurepang). Mário de Andrade mesclou a história de Makunaíma, como grafa Koch-Grünberg, com outras de Capistrano de Abreu, Couto Magalhães, Pereira da Costa e relatos orais. 

Sinopse: Macunaíma nasceu no fundo do mato-virgem, filho do medo e da noite, uma criança birrenta, preguiçosa e de mente ardilosa. Passa a infância em uma tribo amazônica até que toma banho de mandioca brava e se torna um adulto. Apaixona-se por Ci, a Mãe do Mato, e com ela tem um filho que morre ainda bebê. 

Após a morte do filho, Ci sobe aos céus de desgosto e vira uma estrela. Macunaíma fica muito triste por perder a sua amada, tendo como única recordação dela um amuleto chamado muiraquitã. Porém ele o perde. 

Macunaíma descobre que o amuleto está em São Paulo na posse de Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piamã comedor de gente, para onde vai com os irmãos a fim de recuperar o muraiquitã. 

Ua: Brari: do outro lado do mundo (1990), de Marcelo Rubens Paiva 
Lançado originalmente em 1990, Ua: Brari é o terceiro livro de Marcelo Rubens Paiva, autor do clássico Feliz Ano Velho. Apesar disso, o autor não considera este seu melhor livro: “Pessoas gostam de coisas em Feliz Ano Velho que considero tolas. Meu livro Ua: Brari: passou despercebido. Já encontrei alguns amigos que me falam que é o meu melhor livro. Livro semi-experimental, que escrevi todo ele entorpecido por THC e pela paixão por Guimarães Rosa”. 

Em Ua: Brari, os dramas de cada personagem se misturam à história recente do Brasil. O livro conta a trajetória de Fred, que retoma seu romance com Bia no dia do casamento dela com Júlio, irmão de Zaldo. Os três rapazes já namoraram Bia e, quando jovens, todos estudaram juntos, mas não desconfiam que a vida deles em breve estará interligada num enredo de paixão, drama, dor e loucura. 

Jornalista, Fred é convocado para fazer uma expedição à Amazônia e descobrir o paradeiro de Zaldo, que, desapareceu na mata. Mais tarde chega a notícia de que este lidera uma seita e é tratado como messias pelos povos da floresta. Chamam-no de Ua: Brari, que, segundo lenda dos índios Macuxi, é o nome do jovem que conhecia o caminho para o outro lado do mundo. 

Histórias de corrupção e mentira surgem diante do repórter, mas ele precisa se calar, pois tem a vida ameaçada. 

A árvore do mundo e outros feitos de Macunaíma: mito-herói dos índios makuxi, wapixana, taulipang e arekuná (1986), de Ciça Fittipaldi 
Assim como Macunaíma, de Mário de Andrade, A árvore do mundo e outros feitos de Macunaíma, de Ciça Fittipaldi, também se inspira na obra Mitos e lendas dos índios Taulipang e Arekuná, de Koch-Grunberg, que corresponde ao segundo tomo do livro Do Roraima ao Orinoco.

O livro de Ciça Fittipaldi faz parte da série Morená, com a qual a autora conquistou o Prêmio APCA Destaque Especial em Literatura Infantil de 1986. 

Também compõe a série o livro ‘Naro, o Gambá: mito dos índios yanomami’, além de outras obras inspiradas em etnias indígenas brasileiras. 

Sinopse: as façanhas de Macunaíma, narradas com o falar direto e encantatório dos indígenas. O mito-herói revelou e ordenou o mundo. A beleza das ilustrações ilumina o tom mágico e poético do texto. 

Naro, o gambá: mito dos índios yanomami (1986), de Ciça Fittipaldi 
Com ilustrações inspiradas nas culturas indígenas de onde foram transcritos, a obra apresenta os mitos de índios em linguagem que tem por objetivo conservar o tom mágico e a poesia. 

A história de Naro, além de narrar como as coisas se instalaram no mundo, pintando nos bichos as pinturas corporais que se tornaram suas características, fala sobre a vaidade, o ciúme amoroso e seus venenos letais. 

No tempo em que os bichos eram gente, o Gambá vivia com Mel numa cabana. As moças Flor e Abelha foram à cabana de Gambá, e este se mostrou para elas. Só que elas gostaram de Mel, que era bonito e cheiroso, enquanto Gambá era feio e malcheiroso.

Leia também
Entre ‘O Mundo Perdido’ e Sherlock Holmes: um imenso abismo
Órfãos de Haximu e os órfãos de literatura sobre o povo Yanomami
História de livro ambientado no Brasil é a inspiração de Jurassic Park