Mostrando postagens com marcador Arthur Conan Doyle. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arthur Conan Doyle. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Roraima: inspiração e cenário de livros ficcionais de escritores não roraimenses

Neste blog, já resenhamos obras literárias cujas histórias se passam em Roraima escritas por autores que não nasceram nem moram ou moraram no Estado. 

Ainda que a obra não cite textualmente a montanha, o Monte Roraima é a inspiração e o cenário do infantojuvenil ‘O Mundo Perdido’, do escritor britânico Arthur Conan Doyle. Outro exemplo é o também infantojuvenil ‘Órfãos de Haximu’, de (2010), das autoras cariocas Inês e Maria Lúcia Daflon, sobre o povo Yanomami. 

Conheça algumas outras obras escritas por não roraimenses também inspiradas e/ou ambientadas em Roraima: 

Macunaíma (1928), de Mário de Andrade 
Macunaíma, livro de Mário de Andrade publicado em 1928, é considerado um dos principais romances modernistas. A obra é uma rapsódia sobre a formação do Brasil, em que vários elementos nacionais se cruzam numa narrativa que conta a história de Macunaíma, o "herói sem nenhum caráter".

A principal inspiração do romance é o segundo de cinco volumes do livro, publicado em alemão em 1916, ‘Do Roraima ao Orinoco’, em que o etnólogo Theodor Koch-Grünberg, transcreve histórias narradas por indígenas dos povos Arekuná e Taulipanque (Taurepang). Mário de Andrade mesclou a história de Makunaíma, como grafa Koch-Grünberg, com outras de Capistrano de Abreu, Couto Magalhães, Pereira da Costa e relatos orais. 

Sinopse: Macunaíma nasceu no fundo do mato-virgem, filho do medo e da noite, uma criança birrenta, preguiçosa e de mente ardilosa. Passa a infância em uma tribo amazônica até que toma banho de mandioca brava e se torna um adulto. Apaixona-se por Ci, a Mãe do Mato, e com ela tem um filho que morre ainda bebê. 

Após a morte do filho, Ci sobe aos céus de desgosto e vira uma estrela. Macunaíma fica muito triste por perder a sua amada, tendo como única recordação dela um amuleto chamado muiraquitã. Porém ele o perde. 

Macunaíma descobre que o amuleto está em São Paulo na posse de Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piamã comedor de gente, para onde vai com os irmãos a fim de recuperar o muraiquitã. 

Ua: Brari: do outro lado do mundo (1990), de Marcelo Rubens Paiva 
Lançado originalmente em 1990, Ua: Brari é o terceiro livro de Marcelo Rubens Paiva, autor do clássico Feliz Ano Velho. Apesar disso, o autor não considera este seu melhor livro: “Pessoas gostam de coisas em Feliz Ano Velho que considero tolas. Meu livro Ua: Brari: passou despercebido. Já encontrei alguns amigos que me falam que é o meu melhor livro. Livro semi-experimental, que escrevi todo ele entorpecido por THC e pela paixão por Guimarães Rosa”. 

Em Ua: Brari, os dramas de cada personagem se misturam à história recente do Brasil. O livro conta a trajetória de Fred, que retoma seu romance com Bia no dia do casamento dela com Júlio, irmão de Zaldo. Os três rapazes já namoraram Bia e, quando jovens, todos estudaram juntos, mas não desconfiam que a vida deles em breve estará interligada num enredo de paixão, drama, dor e loucura. 

Jornalista, Fred é convocado para fazer uma expedição à Amazônia e descobrir o paradeiro de Zaldo, que, desapareceu na mata. Mais tarde chega a notícia de que este lidera uma seita e é tratado como messias pelos povos da floresta. Chamam-no de Ua: Brari, que, segundo lenda dos índios Macuxi, é o nome do jovem que conhecia o caminho para o outro lado do mundo. 

Histórias de corrupção e mentira surgem diante do repórter, mas ele precisa se calar, pois tem a vida ameaçada. 

A árvore do mundo e outros feitos de Macunaíma: mito-herói dos índios makuxi, wapixana, taulipang e arekuná (1986), de Ciça Fittipaldi 
Assim como Macunaíma, de Mário de Andrade, A árvore do mundo e outros feitos de Macunaíma, de Ciça Fittipaldi, também se inspira na obra Mitos e lendas dos índios Taulipang e Arekuná, de Koch-Grunberg, que corresponde ao segundo tomo do livro Do Roraima ao Orinoco.

O livro de Ciça Fittipaldi faz parte da série Morená, com a qual a autora conquistou o Prêmio APCA Destaque Especial em Literatura Infantil de 1986. 

Também compõe a série o livro ‘Naro, o Gambá: mito dos índios yanomami’, além de outras obras inspiradas em etnias indígenas brasileiras. 

Sinopse: as façanhas de Macunaíma, narradas com o falar direto e encantatório dos indígenas. O mito-herói revelou e ordenou o mundo. A beleza das ilustrações ilumina o tom mágico e poético do texto. 

Naro, o gambá: mito dos índios yanomami (1986), de Ciça Fittipaldi 
Com ilustrações inspiradas nas culturas indígenas de onde foram transcritos, a obra apresenta os mitos de índios em linguagem que tem por objetivo conservar o tom mágico e a poesia. 

A história de Naro, além de narrar como as coisas se instalaram no mundo, pintando nos bichos as pinturas corporais que se tornaram suas características, fala sobre a vaidade, o ciúme amoroso e seus venenos letais. 

No tempo em que os bichos eram gente, o Gambá vivia com Mel numa cabana. As moças Flor e Abelha foram à cabana de Gambá, e este se mostrou para elas. Só que elas gostaram de Mel, que era bonito e cheiroso, enquanto Gambá era feio e malcheiroso.

Leia também
Entre ‘O Mundo Perdido’ e Sherlock Holmes: um imenso abismo
Órfãos de Haximu e os órfãos de literatura sobre o povo Yanomami
História de livro ambientado no Brasil é a inspiração de Jurassic Park

terça-feira, 24 de julho de 2018

História de livro ambientado no Brasil é a inspiração de Jurassic Park


Você sabia que a história de ‘O Mundo Perdido’ (1912), o livro que inspirou Jurassic Park, se passa no Brasil? Eu já tinha escrito uma resenha sobre o livro (para ler, clique aqui). Só não tinha dito ainda que a história fez sucesso quando foi lançada nos cinemas em 1925 (caraca!) e inspirou todos os outros filmes de dinossauros que vieram depois: King Kong (1933) (sim, nesse filme tem dinossauro!), a animação infantil Em Busca do Vale Encantado (1988), Up – Altas Aventuras (2009) (não tem dinossauro, mas a narceja Kevin não parece um bicho jurássico?) e, claro, Jurassic Park.

  
Foi o Monte Roraima, na fronteira do Brasil (Roraima) com a Venezuela e a Guiana, que inspirou a Terra de Maple White, platô na bacia amazônica brasileira descrito no livro de Arthur Conan Doyle, ainda que na obra o autor não seja lá muito detalhado ao situar geograficamente o local. Para quem não sabe, platô é uma montanha em forma de mesa. Já Conan Doyle é também o criador de, ninguém mais, ninguém menos que o famoso detetive inglês Sherlock Holmes.

cena do filme O Mundo Perdido
cena de King Kong (1933)
 

cena de Up - Altas Aventuras
Parece a montanha de O Mundo Perdido, né?


Monte Roraima. Foto: Koch-Gruberg, entre 1911-1913
Lembra muito a montanha de O Mundo Perdido. Você acha coincidência?

Ao contrário de mim, Conan Doyle nunca pisou no Monte Roraima (chupa, Doyle! Fãs do autor, é brincadeirinha... Não fiquem chateados), mas o pai de Sherlock leu relatos de viajantes à montanha na época ainda recém explorada pelos ocidentais. E assim nasceu um clássico da literatura mundial!

Gostou? Compartilhe e deixe sua opinião nos comentários.

Leia também
Entre ‘O Mundo Perdido’ e Sherlock Holmes: um imenso abismo
Resenha: Daniel Sapeca e o Diamante Azul do Tepequém (Clotilho Filgueiras)
Órfãos de Haximu e os órfãos de literatura sobre o povo Yanomami
O Homem de Barlovento: um tesouro oculto
Patachu, o personagem que inspirou o Pequeno Príncipe

terça-feira, 20 de junho de 2017

Entre ‘O Mundo Perdido’ e Sherlock Holmes: um imenso abismo



(resenha do livro ‘O Mundo Perdido’, de Arthur Conan Doyle)

Ver em uma obra de ficção o lugar onde você vive é indescritível. Foi esse motivo que me fez ler o clássico ‘O Mundo Perdido’, de Arthur Conan Doyle: a narrativa se passa, no começo do século XX, no Monte Roraima, montanha que, além de eu já ter subido, fica no Estado de Roraima, onde nasci.

A história não é ruim, mas nela dois pontos me frustraram: 1) sei que Doyle poderia escrever história bem melhor; 2) e há um tom eugênico, racista no discurso da obra.

Escrito em 1912, inspirado em relatos de terceiros sobre expedições à América do Sul, ‘O Mundo Perdido’ logo se tornou um clássico mundial de ficção científica. Nele, um grupo de exploradores ingleses faz uma expedição científica na Amazônia (Monte Roraima), onde se deparam com criaturas pré-históricas, tribos de homens-macaco e homens primitivos. É realmente fantástico!

Para quem não ligou o autor ao personagem, Conan Doyle é criador de Sherlock Holmes, personagem mais popular, inclusive, que o próprio escritor. ‘Um Estudo em Vermelho’, o primeiro livro (de muitos!) em que aparece o mais conhecido detetive da ficção, é tão fascinante que li em um único dia. Claro que não se pode exigir de um autor que todas as suas produções sejam tão boas quanto sua obra-prima, mas também não se pode exigir do público que não crie essa expectativa.

Bem, o outro motivo para ter gostado menos de ‘O Mundo Perdido’ é o seu discurso eugênico. Na história, narrada pelo ponto de vista eurocêntrico, leem-se os ingleses/europeus como raça superior, civilizada, nobre por natureza, em oposição aos povos por eles encontrados na América do Sul, que beiravam o estágio selvagem/animalesco. Em ‘O Mundo Perdido’, personagem indígena nenhum passa de figurante. Sei que esse é o discurso da época (inclusive, o científico), o que não é suficiente para me deixar menos incomodado com o discurso.

Também procurava, mas não consegui ver em profundidade na obra a região que hoje é Roraima (o Estado). Fico me perguntando se fiz uma leitura rápida demais! Na obra, é fácil encontrar uma boa descrição: a) do porto e do encontro das águas dos rios Negro e Solimões, em Manaus; b) do Monte Roraima; c) e da paisagem entre a cidade amazônica e a montanha: o rio-mar e seus afluentes dentro da mata fechada.

Entretanto, exceto o que se refere especificamente ao monte, lembro uma única e rápida descrição sobre a vegetação que identifiquei como sendo de Roraima: em determinado momento, o narrador fala de uma mudança brusca na paisagem, de floresta para uma vegetação rasteira. Seria o que os roraimenses chamamos de lavrado (savana).

Apesar do relato acima, deixo claro: não só não me arrependo da leitura, como a indico!

Até a próxima!

DOYLE, Arthur Conan. O mundo perdido. São Paulo: Círculo do Livro, 1989.

Em tempo: uma versão anterior deste post dizia que a inspiração de 'O Mundo Perdido' eram relatos do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg. Entretanto, este esteve pela primeira primeira vez no norte do Brasil (Amazonas e Roraima) e na Venezuela entre os anos de 1911 e 1913, e somente publicou a obra acadêmica ‘Do Roraima ao Orinoco’ em 1917. A menos que Conan Doyle tivesse uma máquina do tempo, como no famoso romance de H. G. Wells, é pouco provável que Doyle tenha tido acesso ao livro de Koch-Grünberg, somente publicado anos depois do seu. Obrigado pelos esclarecimentos, Roberto Mibielli, professor de Letras da UFRR!

Leia também:

Resenha: Daniel Sapeca e o Diamante Azul do Tepequém (Clotilho Filgueiras)

Resenha: Rapadura é doce, mas não é mole (José Vilela)