terça-feira, 20 de junho de 2017

Entre ‘O Mundo Perdido’ e Sherlock Holmes: um imenso abismo



(resenha do livro ‘O Mundo Perdido’, de Arthur Conan Doyle)

Ver em uma obra de ficção o lugar onde você vive é indescritível. Foi esse motivo que me fez ler o clássico ‘O Mundo Perdido’, de Arthur Conan Doyle: a narrativa se passa, no começo do século XX, no Monte Roraima, montanha que, além de eu já ter subido, fica no Estado de Roraima, onde nasci.

A história não é ruim, mas nela dois pontos me frustraram: 1) sei que Doyle poderia escrever história bem melhor; 2) e há um tom eugênico, racista no discurso da obra.

Escrito em 1912, inspirado em relatos de terceiros sobre expedições à América do Sul, ‘O Mundo Perdido’ logo se tornou um clássico mundial de ficção científica. Nele, um grupo de exploradores ingleses faz uma expedição científica na Amazônia (Monte Roraima), onde se deparam com criaturas pré-históricas, tribos de homens-macaco e homens primitivos. É realmente fantástico!

Para quem não ligou o autor ao personagem, Conan Doyle é criador de Sherlock Holmes, personagem mais popular, inclusive, que o próprio escritor. ‘Um Estudo em Vermelho’, o primeiro livro (de muitos!) em que aparece o mais conhecido detetive da ficção, é tão fascinante que li em um único dia. Claro que não se pode exigir de um autor que todas as suas produções sejam tão boas quanto sua obra-prima, mas também não se pode exigir do público que não crie essa expectativa.

Bem, o outro motivo para ter gostado menos de ‘O Mundo Perdido’ é o seu discurso eugênico. Na história, narrada pelo ponto de vista eurocêntrico, leem-se os ingleses/europeus como raça superior, civilizada, nobre por natureza, em oposição aos povos por eles encontrados na América do Sul, que beiravam o estágio selvagem/animalesco. Em ‘O Mundo Perdido’, personagem indígena nenhum passa de figurante. Sei que esse é o discurso da época (inclusive, o científico), o que não é suficiente para me deixar menos incomodado com o discurso.

Também procurava, mas não consegui ver em profundidade na obra a região que hoje é Roraima (o Estado). Fico me perguntando se fiz uma leitura rápida demais! Na obra, é fácil encontrar uma boa descrição: a) do porto e do encontro das águas dos rios Negro e Solimões, em Manaus; b) do Monte Roraima; c) e da paisagem entre a cidade amazônica e a montanha: o rio-mar e seus afluentes dentro da mata fechada.

Entretanto, exceto o que se refere especificamente ao monte, lembro uma única e rápida descrição sobre a vegetação que identifiquei como sendo de Roraima: em determinado momento, o narrador fala de uma mudança brusca na paisagem, de floresta para uma vegetação rasteira. Seria o que os roraimenses chamamos de lavrado (savana).

Apesar do relato acima, deixo claro: não só não me arrependo da leitura, como a indico!

Até a próxima!

DOYLE, Arthur Conan. O mundo perdido. São Paulo: Círculo do Livro, 1989.

Em tempo: uma versão anterior deste post dizia que a inspiração de 'O Mundo Perdido' eram relatos do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg. Entretanto, este esteve pela primeira primeira vez no norte do Brasil (Amazonas e Roraima) e na Venezuela entre os anos de 1911 e 1913, e somente publicou a obra acadêmica ‘Do Roraima ao Orinoco’ em 1917. A menos que Conan Doyle tivesse uma máquina do tempo, como no famoso romance de H. G. Wells, é pouco provável que Doyle tenha tido acesso ao livro de Koch-Grünberg, somente publicado anos depois do seu. Obrigado pelos esclarecimentos, Roberto Mibielli, professor de Letras da UFRR!

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Resenha: Daniel Sapeca e o Diamante Azul do Tepequém (Clotilho Filgueiras)

Resenha: Rapadura é doce, mas não é mole (José Vilela)

quinta-feira, 9 de março de 2017

Resenha: Daniel Sapeca e o Diamante Azul do Tepequém (Clotilho Filgueiras)

Ao se deparar em Roraima com o ainda restrito acervo de livros infantojuvenis regionais, Clotilho Filgueiras criou ‘Daniel Sapeca e o Diamante Azul do Tepequém’. Um tiro certeiro. A leitura é fácil e rápida. E o pequeno leitor, ao longo do texto, (re)conhece costumes, lendas, a culinária, riquezas naturais e o que a obra chama de folclore do Estado.

Lançado em 2012, o livro é o primeiro (e único publicado até agora) da série que leva o nome do protagonista, inspirado no seu homônimo, o filho do autor da obra.

Em Daniel Sapeca e o Diamante Azul do Tepequém, o personagem-título vai até a Serra do Tepequém, passando por aventuras diversas em rios, lavrados, lagos, etc., para encontrar um diamante e salvar o casarão de sua vovó Naná, que, por conta de um empréstimo, corre o risco de ser leiloado.

O leitor acompanha as aventuras desse herói mirim do lavrado pelo olhar do próprio narrador-personagem, neto da dona de um casarão de família tradicional de Boa Vista, garoto cuidado por uma velha índia macuxi (Angélica), que, após ser babá de três gerações, já é considerada da família.

Por essas e outras, a obra nos faz revisitar Monteiro Lobato e o Sítio do Pica-Pau Amarelo, em que vemos Pedrinho em Daniel Sapeca, Dona Benta em Vovó Naná, e Tia Nastácia em Angélica.

Ao longo da história, Daniel Sapeca recebe a ajuda da boiuna e de uma vaca, ambas falantes. Esta última teria ganhado vários troféus em feiras de exposição agropecuária em Boa Vista.

Além disso, o protagonista conhece um indiozinho que participa de um triátlon macuxi no Lago do Caracaranã para ganhar como prêmio uma bolsa de estudos em Brasília.

Varias lições permeiam a história: não se apropriar de coisas alheias, proteger a natureza, a importância de que os impostos sejam revertidos para o bem da coletividade. Ah, também é possível ler nas entrelinhas um sonho do coração de criança do autor: de ver a paz entre índios, fazendeiros e agricultores.

Aliás, o livro é repleto de personagens fantásticos (canaimé, boiuna, panela e vaca falantes), mas aqueles que mais parecem ser tão só a engenhosa criação da mente fértil do autor são os políticos que, na história, cumprem suas promessas.

Daniel Sapeca e o Diamante Azul do Tepequém tem tudo para ser a porta de entrada para crianças, de Roraima ou não, conhecerem a rica e ainda pouco conhecida explorada riqueza cultural da região.

FILGUEIRAS, Clotilho. Daniel Sapeca e o Diamante Azul do Tepequém. São Paulo: Biografia, 2012.

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Resenha: Rapadura é doce, mas não é mole (José Vilela)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Resenha: Rapadura é doce, mas não é mole (José Vilela)

Para inaugurar minha coluna de resenhas literárias (ou seja lá o que o for isso que farei daqui pra frente!), tchan tchanranran...: ‘Rapadura é doce, mas não é mole’, de José Vilela!

A obra infantojuvenil foi publicada pela primeira vez em Mato Grosso, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, em 1999. Esta resenha foi escrita com base na segunda edição do livro, que já está na terceira edição.



‘Rapadura...” é uma fábula que conta a história do Tamanduá-Bandeira e seus quatro genros: o Martim-Pescador, o Jacaré, o Carrapato e o Pica-Pau.

Uma história tão brasileira, escrita por um mato-grossense morador de Roraima, com um título/ditado popular que é a cara do nordeste, ambientada entre dois rios do Centro-Oeste, e com animais, inclusive o protagonista (Tamanduá-Bandeira), que são bem familiares para muitos de nós amazônidas.

Antes de começar a história, o escritor já nos ganha. Em ‘Palavras do Autor’, narra um fato que teria ocorrido com sua irmã: ao ser assaltada na rua, instintivamente, ela teria usado a bolsa como arma contra o ladrão de galinha, que desabou ‘de cata-cavaco no chão’. E o que tem isso? Dentro da bolsa, havia uma rapadura. Aliás, como diz Vilela, ‘Santa Rapadura’. Salvou mais uma vida! E o assaltante, se não sabia, aprendeu, da forma mais dolorosa possível, o porquê do ditado ‘rapadura é doce, mas não é mole’.

Vilela, a quem ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, faz parecer fácil o exercício da escrita. Sua narrativa é fluida, como quem, com causos e mais causos antigos, impressiona os netos, sentados em roda, ao pôr do sol, na frente de casa. É como se ao ler, ouvíssemos a voz do narrador.

Jornalista que se fez escritor, de forma nem tão esporádica como o autor humildemente refere a si mesmo no livro, em ‘Rapadura...”, José Vilela metamorfoseia-se, diante do leitor, naquele avô que conta cada história do tempo em que os animais falavam e que deixa a meninada de olhos arregalados e ouvidos atentos para não perder nenhuma aventura de bichos que mais parecem gente.

Aliás, esse é um dos pontos altos do livro: o poder de construir os personagens (animais) demasiadamente humanos, com sentimentos, fraquezas, humor. É verdade que a figura de linguagem prosopopeia (ou personificação) é predominante em qualquer fábula, mas, em ‘Rapadura...”, Vilela passou da conta, está de parabéns, matou a pau, ou seja lá qual expressão você usa para dizer que alguém foi além da média.

Vamos à história: o Tamanduá-Bandeira quer medir força com seus genros e, a cada capítulo, se dá mal tentando repetir o feito de cada um deles: na pescaria, na preparação da fogueira, em descer de árvores e na colheita de mel.

Como toda fábula, no fim, o leitor é apresentado à moral da história (ainda que não esteja grafada no livro a expressão ‘moral história’) que você terá que ler para saber qual é (não serei inconveniente a dar spoilers aqui!).


Espero que se aventure em ‘Rapadura é doce, mas não é mole’ e, quem sabe, assim como eu, ficará louco de vontade de ler ‘O Guru da Floresta’, publicação mais recente do autor.

VILELA, José. Rapadura é doce, mas não é mole. 2. ed. Boa Vista: José Vilela de Moraes, 2016.


Ah, escritor(a), se você tem interesse em ter sua obra resenhada pelo blog, entre em contato

sábado, 20 de agosto de 2016

O Brasil precisa de uma política de leitura e escrita (coluna Letras Políticas)

“Para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho serve” – disse o escritor Lewis Caroll, pela boca do Gato, personagem da sua mais famosa obra, Alice no País das Maravilhas. Já o poeta Thiago de Mello escreveu: “não tenho caminho novo. O que tenho de novo é o jeito de caminhar”.
Quem costuma se aventurar pelo mundo mágico das palavras sabe que, tão importante quanto o desfecho de uma narrativa, é como se chega lá. A nação que almeja ser um país de leitores e de gente que escreve a própria história deve ter não só um plano, mas uma política de leitura e escrita.
O projeto de lei n. 212/2016 tramita no Congresso e pretende instituir a Política Nacional de Leitura e Escrita. O projeto é fruto de um amplo e longo debate entre a sociedade civil organizada e o Poder Público, que, entre outros, rendeu frutos como o Plano Nacional do Livro e Leitura, instituído em 2006.
O projeto de lei prevê que a Política Nacional de Leitura e Escrita seja implementada pelos ministérios da Cultura e da Educação, em cooperação com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, e com a participação da sociedade civil e de instituições privadas.
Alguns dos objetivos do projeto são democratizar o acesso ao livro; fomentar estudos e indicadores nas áreas do livro, da leitura, da escrita, da literatura e das bibliotecas; desenvolver a economia do livro; promover a formação profissional nos segmentos criativo e produtivo do livro e mediador da leitura; e incentivar a criação e a implantação de planos estaduais e municipais do livro e da leitura.
Para que esta não seja uma lei que nasça letra morta, a sociedade civil deve participar ativamente de sua construção, exigir a realização de audiências públicas e se fazer presente nesses importantes momentos da elaboração de políticas públicas para o setor. Temos um bom caminho pela frente. Caminhemos…

sábado, 6 de agosto de 2016

​Ocupar com todas as letras

O recuo do Governo Temer que o levou a desextinguir o Ministério da Cultura representa uma vitória dos direitos culturais brasileiros e o poder de mobilização dos artistas, produtores culturais e militantes do segmento. Os fazedores de literatura também ajudam a construir essa história, que ainda não acabou, mas esperamos tenha final feliz.
Diferente do que dizem os grandes veículos de comunicação do País e as intermináveis campanhas difamatórias nas redes sociais, não queremos regalias. Não nos interessa a distorcida política da Lei Rouanet, que, refém de critérios mercadológicos, concentra a maior parte do incentivo nos dois Estados mais ricos do Brasil e acaba por destinar recursos públicos para a promoção de grandes empresas.
Queremos políticas públicas que deem especial atenção aos grupos e segmentos historicamente excluídos dos direitos de acesso aos bens e serviços culturais e que promovam a democratização do acesso à produção cultural.
Queremos a continuidade e o aperfeiçoamento de iniciativas como a Política Nacional de Cultura Viva, o Prêmio Viva Leitura, o suporte à participação de representantes da sociedade civil no Conselho Nacional de Política Cultural, editais de fomento à criação, à publicação, à circulação, à formação, a intercâmbios literários e à estruturação de bibliotecas comunitárias. Para ter o efeito necessário e duradouro, essas e outras ações devem ser assumidas como políticas de Estado, mais que de Governo.
Esta coluna é um espaço de exposição e diálogo sobre políticas voltadas à literatura, ao livro, à leitura e às bibliotecas. Como toda obra aberta, de que fala Umberto Eco, este é um território aberto a sugestões de temas e a discussões. Que nos ocupemos delas e as ocupemos com todas as letras!
* Texto publicado originalmente na coluna Letras Políticas, do blog Portal da Escrita, no dia 5 de agosto de 2016.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Por uma lei que incentive a cultura

A recente regulamentação do Fundo Estadual de Cultura não significa o fim da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Trata-se de formas de investimento complementares. Baseada na isenção fiscal de empresas que decidem patrocinar projetos culturais, a Lei de Incentivo foi, por anos, o único dispositivo público de investimento em cultura em Roraima e não só não pode agora ser abandonada, como tem muito ainda a ser aprimorada.
O principal motivo para alterar urgentemente a lei 318/01 é que ela está em desacordo com o convênio ICMS 74/03, realizado entre o Governo de Roraima e o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), que autoriza o Estado a conceder crédito presumido do ICMS aos contribuintes enquadrados em programa estadual de incentivo à cultura.
Além disso, a Lei de Incentivo precisa de mecanismos que lhe propiciem mais transparência e eficiência na sua missão de ser uma política pública que ofereça especial atenção aos grupos e segmentos historicamente excluídos dos direitos de acesso aos bens e serviços culturais e que promova a democratização do acesso à produção cultural.
A Lei deve estabelecer contrapartidas mínimas para os projetos selecionados, para além das doações de exemplares do produto cultural que os editais vêm exigindo para a Biblioteca Pública Estadual e demais entidades oficiais de promoção da cultura.
É preciso garantir um quantitativo mínimo de ingressos ou produtos culturais gratuitos e a preços populares. E nada mais justo que projetos que recebam investimento público garantam o acesso a pessoas com deficiência e idosos, moradores de locais remotos ou periféricos e outros públicos que, de outra forma, não teriam acesso a esses bens e serviços.
Além disso, é preciso qualificar a avaliação dos projetos, por meio da contratação de pareceristas, especialistas em cada segmento cultural, a exemplo do que já é feito em outros Estados brasileiros, como Paraná, Ceará e Mato Grosso do Sul, ou pela própria Lei Rouanet, do Governo Federal.
Hoje, a avaliação técnica dos projetos é feita em Roraima por um grupo formado por servidores estaduais, membros de associações culturais e representantes indicados pelo Conselho Estadual de Cultura. Todavia, é muito comum que projetos sejam avaliados por profissionais que, ainda que sejam referência em seu segmento, não têm conhecimento suficiente para realizar um bom julgamento na área específica do projeto.
É necessário ainda acabar com contradições, como o fato de membros do Grupo Técnico de Avaliação de Projetos serem impedidos de apresentar projetos à Lei de Incentivo e não receberem remuneração, enquanto conselheiros de cultura, que avaliam o mérito cultural dos projetos, ganham gratificação de presença (jeton) para participar de reuniões e podem submeter projetos à Lei Estadual de Incentivo à Cultura.
Atualmente, por exemplo, a Lei não impede expressamente que um conselheiro de cultura avalie o projeto cujo proponente seja ele próprio ou a entidade cultural da qual faz parte. Da mesma forma, não estão legalmente impedidos de inscrever projetos servidores da Secretaria de Estado da Cultura ou mesmo o Secretário de Cultura.
É preciso também limitar a possibilidade de cortes orçamentários por parte dos avaliadores que inviabilizem o projeto cultural, estipular gasto mínimo com a contratação de profissionais ou empresas prestadoras de serviços de Roraima e possibilitar que se definam áreas de investimento prioritárias, com o objetivo de diminuir distorções históricas e a concentração dos recursos em um número reduzido de segmentos, grupos ou artistas.
Em suma, é preciso criar mecanismos para aperfeiçoar a legislação para que ela cumpra efetivamente o seu papel de incentivar a cultura de Roraima.

* artigo publicado no jornal Folha de Boa Vista, em 6 de janeiro de 2016

sábado, 26 de dezembro de 2015

Conselhos para uma cultura permanentemente democrática

Roraima vive um momento único de mobilização do segmento artístico e de organização da sociedade civil em torno da cultura. No começo de novembro, pela primeira vez, a população do Estado pôde escolher pelo voto direto seus representantes no Conselho Estadual de Cultura (CEC), para o quadriênio 2016-2019.
Também neste mês, uma grande mobilização culminou com a eleição de pelo menos cinco produtores culturais de Roraima como titulares dos colegiados setoriais de Literatura, Música, Dança, Teatro e Artes Visuais do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) 2016-2017. No biênio anterior, foram apenas dois representantes do Estado.
Este número pode aumentar, considerando que ainda estão previstos fóruns dos setoriais das áreas técnicas (Arquitetura e Urbanismo, Arquivos, Design, Moda, Patrimônio Material e Museus), além de Cultura Popular, Afro-brasileira, Patrimônio Imaterial, Artesanato e Indígena.
Diante desse cenário, ainda que se mudem os gestores, os representantes da sociedade civil, articulados com suas bases, estarão preparados e dispostos para pautar as políticas públicas que queremos e desejamos para a cultura. Não há mais espaço para política sem povo. Qualquer forma de governar que desconsidere a vontade e a participação da sociedade civil organizada estará fadada ao fracasso.
Caberá agora ao Governo do Estado definir seus representantes no Conselho, a partir de critérios que privilegiem a política de governança. Os representantes governamentais no Conselho devem ter perfil de gestão no âmbito da cultura, com experiência em política participativa.
Não cabem mais conselhos de cultura compostos por notáveis, personalidades individuais de destaque na vida intelectual e artística, formação comum entre as décadas de 60 e 80 do século passado, que, segundo Lia Calabre, “provoca um significativo distanciamento entre as reais necessidades e demandas do conjunto da comunidade e os projetos de cultura submetidos à apreciação”.
Os novos conselheiros estaduais terão, entre outras, a missão de propor a reformulação do próprio Conselho. Os setoriais representados no CEC devem ser criados e regulamentados. O Conselho de Cultura precisa ser urgentemente elevado ao patamar de instância deliberativa. Além disso, sua composição deve ser revista, criando-se vagas específicas para dança, teatro, culturas populares e indígenas, por exemplo. É necessário ainda criar mecanismos que garantam a participação de representantes de outros municípios, além da capital.
Tais mudanças, necessárias e possíveis, podem ser facilmente implantadas pelo Poder Público, desde que os novos conselheiros deem continuidade ao trabalho da composição atual, fortalecendo e ampliando cada vez mais a atuação do CEC de forma autônoma, aberta e de diálogo com a sociedade civil.

* artigo publicado no jornal Folha de Boa Vista, em 26 de novembro de 2015.