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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Entrevista com o escritor Gabriel Alencar

A quinta entrevista da série com escritores de Roraima é com Gabriel Alencar. 

Nascido e criado em Roraima, Gabriel Alencar ingressou na literatura em 2016 após participar do Concurso Literário Aldenor Pimentel. Desde então, tem conquistado diferentes prêmios e reconhecimentos literários no Brasil e, recentemente, lançou o livro "Personagens não bíblicos e suas histórias" (2019), publicado pela editora Cultor de Livros.


Como se deu seu contato com a leitura? Alguém o incentivou? 

Meu primeiro contato com a leitura foi na infância. Eu estudava no Objetivo e ganhei um concurso de leitura (era um livro do Menino Maluquinho). Mas foi no começo da adolescência que o gosto pela leitura realmente apareceu. Meus pais me levaram para conhecer a Biblioteca do Palácio da Cultura, em Boa Vista. Aquele mundo de oportunidades se abriu e nunca mais saí dele. Lembro que o primeiro livro que emprestei lá foi "O poeta e o cavaleiro", de Pedro Bandeira. Eu aproveitava as férias da escola para ler e ia quase todos os dias à biblioteca. Houve um mês que eu li 30 livros. 


Que livros você mais gostou de ler na vida? De que gêneros, escolas literárias e temas você mais gosta? 

Como um bom nerd, fantasia e ficção científica sempre foram meus tipos favoritos. Mas tenho um apego pelo drama, que me vem desde a infância também. Não é à toa que leio com gosto Érico Veríssimo, Dostoiévski, Hemingway; mas eles dividem estante com Lewis, Tolkien, Douglas Adams, etc. O que descobri é que não existe necessariamente um tema ou gênero de que eu mais goste. Leio do terror à comédia sem problemas, o que importa pra mim é que o livro tenha a capacidade de me fazer imergir na história para que, por um momento, a mágica aconteça e eu seja transportado para outro lugar. 


Quais são suas influências artísticas? Que características desses autores e obras estão presentes na sua produção?

Por mais nerd que eu seja, minha principal influência está em Érico Veríssimo. Seu estilo despojado e seu apego ao cotidiano, às coisas simples da existência humana, e a tradução disso em linguagem acessível a todos se tornaram algo tão marcante que eu me propus a transmitir isto também para o que eu escrevo. Eu invejo um pouco a psicologia profunda de Dostoiévski, não nego. Existem vários destes que com certeza me influenciam indiretamente. Eu talvez só não veja. O sonho de criar um mundo fantástico, por exemplo, ainda crepita dentro de mim (culpa de Tolkien e Lewis). 


Como você avalia o cenário atual da literatura em Roraima? 

Cheguei a comentar isso em outra entrevista: acho surpreendente como a cena literária roraimense é propensa à cooperação. Evidente que não é isenta de conflitos, mas a vontade de cooperar tem sido um marco na minha trajetória. Veja bem: eu, um escritor ao acaso, desconhecido, tenho escritores já consolidados e experientes ao meu redor que estão constantemente me auxiliando, dando dicas, sugerindo melhorias, etc. Isto me ajuda a crescer, a aprender. Certa vez, comentei com um colega escritor de Brasília e mencionei esta nossa cena local. Ele achou algo de outro mundo. Disse que por lá algo assim seria inimaginável, num "dog eat dog world" em que todos querem devorar. Eu acredito piamente que se preservarmos ao máximo nosso desejo de cooperar, todos podem crescer muito em Roraima. 


Que trabalhos literários roraimenses você mais admira? 

Esse é difícil. Primeiro porque devo admitir meu pecado: não leio tantos autores roraimenses quanto deveria. Em parte, é pelo medo. Tenho medo de não gostar. E não consigo mentir. Especialmente por conta das resenhas que posto com alguma frequência no meu blog. Mas posso falar que, dos que já li, tenho três favoritos: Devair Fiorotti, Aldenor Pimentel e Edgar Borges. 

Com estes dois últimos, sinto familiaridade nos textos. Acho que temos algo em comum na escrita de contos, talvez até nas abordagens poéticas. Já o primeiro, desculpem rapazes, está em outro nível. A qualidade do material do prof. Devair é fenomenal, fruto de anos de pesquisa e experiência acadêmica que só os anos podem dar. 


O que você diria sobre a nova geração de escritores de Roraima? 

Agora complicou (risos). Complicou porque, julgo eu, me encaixo nessa categoria bem aí. O que dizer da nova geração? Não tenho ideia. Estamos tentando criar literatura; mas, como todos que vieram antes de nós, temos mil afazeres e preocupações. É difícil dedicar-se melhor à literatura. Produzimos algo diferente? Inegável. Seria isso melhor? Questionável. Não temos experiência ainda (é muita ousadia falar em nome de toda a geração, corta isso). Não tenho experiência ainda. Mas produzimos algo diferente porque somos outra geração, temos um Zeitgeist diferente que nos permeia, somos marcados por novos processos. Só o que precisamos é aplicar isso a uma literatura cada vez mais qualificada. 


Quais são seus objetivos, como escritor? 

Excelente pergunta. Eu saí da música e caí na literatura bem ao acaso. Pra ser bem sincero, ainda não tenho plena consciência do que estou fazendo, só sei que está dando certo. Aliás, as coisas aconteceram tão rápido e deram tão certo, que não tenho dúvidas de que a escrita foi um presente de Deus. Partindo disto, acho que meu grande objetivo é servir ao Senhor com este dom. Onde isso vai levar? Ou melhor, onde quero chegar com isso? Bom, isso ainda não sei. 


Quais os momentos mais marcantes da sua carreira? 

Ah, com certeza ter ganhado aquele primeiro concurso em 2016. Ali foi um "turning point", um momento em que meus olhos foram abertos para uma nova possibilidade. Ouso dizer, pelo menos até agora, que foi maior até mesmo do que o lançamento do meu livro. Tudo que aconteceu depois derivou dali. Embora, é claro, todo o processo de "Personagens não bíblicos e suas histórias" (desde sua concepção, até sua publicação e lançamento) foi algo que maturou demais meu conceito sobre literatura e mercado literário. 


Como você caracteriza os textos que produz?

Vish, aí acho que esta seria uma pergunta para um crítico de literatura, ha ha. Não tenho know-how suficiente pra dizer algo assim. Arrisco a dizer que são textos sempre informais, ou simples. Mas isto não expressa bem ainda a coisa. Até mesmo os textos que eu produzi há três anos já não tem as mesmas características dos que eu produzo hoje. Meu parecer final, penso, é que ainda estou muito "verde" pra apontar algo assim com clareza.


Como é o seu processo de criação? 

Excelente pergunta. Na música eu saberia responder isso com bastante facilidade. Mas, na literatura, creio que o processo se dá de três modos: ideia do começo, ideia do fim, demanda de ideia. Às vezes, tenho ideia do começo de algo e resolvo explorar, pra ver aonde vai chegar; às vezes tenho a ideia do fim e resolvo escrever algo para chegar ali. A demanda da ideia, por sua vez, tem sido o mais comum. Quando participo de concursos literários, vejo o que é necessário (limite do tamanho do texto, temática, etc). e escrevo a partir desses parâmetros. Algumas vezes, a isto soma-se a "ideia do começo/fim"; mas, quando não ocorre, faço muito brainstorm (de preferência com outras pessoas) até sair algo que eu diga "ah, com isso eu posso trabalhar". E escrevo. 


O que o inspira a escrever? Quais são seus temas mais recorrentes? 

Fantasia. Mas uma fantasia que vai além de dragões e magos. O que me inspira a escrever são as coisas simples da vida. Assim como Érico Veríssimo, acredito que a verdadeira magia não está nas grandes coisas, mas nas nossas lutas diárias, nas derrotas e vitórias, nos pequenos sorrisos, na vida do dia a dia. Chamo isso de "fantasia do cotidiano". Hoje, acho que mesmo se escrevesse um romance de fantasia, eu ainda escreveria algo utilizando esse recorte. 


Fale sobre os livros que você publicou. 

Por enquanto, tenho apenas um: "Personagens não-bíblicos e suas histórias", obra de ficção cristã. Trata-se de uma antologia contendo 22 contos que abordam o cotidiano de pessoas que teriam vivido nos tempos de Jesus. Os contos enfatizam as coisas simples do dia a dia, possibilitando ao leitor relacionar-se com as personagens e perceber que Deus não está apenas nos grandes acontecimentos, mas em todos eles. Utilizo a cronologia do Novo Testamento para trazer o olhar de personagens que não participaram diretamente dos grandes acontecimentos de sua época, mas que estavam lá vivenciando tudo. 


Como você tem conseguido viabilizar financeiramente a publicação dos seus trabalhos?

No momento, tudo é graças à editora Cultor de Livros, que acreditou na proposta do livro e o publicou nos moldes tradicionais. Mas além disto, utilizo com bastante intensidade as redes sociais e plataformas on-line gratuitas. O engajamento nas redes sociais é algo que tem impulsionado bastante o meu trabalho.


Quais são seus projetos futuros? 

Só perguntas excelentes. A resposta é simples: não tenho ideia. Como falei, a literatura caiu no meu colo e ainda estou tentando lidar com isso. Não sei até que ponto vou deixar a Música de lado (se é que vou fazer isso) e nem sei que caminho percorrer ainda. Por hora, admito que tenho ideia para pelo menos dois outros livros: um de microcontos/crônicas e outro um romance de fantasia. Mas tudo ainda está bastante no mundo das ideias. A verdade é que não sei bem ainda que caminho escolher. 


Caso queira acrescentar algo a mais que não foi perguntado, fique à vontade. 

Só gostaria de reforçar. Nunca foi tão evidente que o que eu tenho feito não é meu. Não é algo que vem de mim. Deus tem aberto as portas e me presenteado com tudo isso, nunca tive tanta certeza de algo. Na música, quem sabe eu ainda cairia no erro de querer reivindicar alguma glória, uma vez que estudei com afinco o piano, cello, canto lírico, teoria musical para escrever as composições, etc. Mas, por outro lado, na literatura não tenho aporte nenhum. Não dá nem pra tentar. A literatura, para mim, foi um presente de Deus. 


Redes sociais 

(hoje em dia 90% de tudo que publico está no Instagram @escritoraoacaso. Recomendo seguir!)


Blog 



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(embora o mais eficiente talvez seja comprar diretamente comigo, por meio do Instagram ou Facebook) 


Outras entrevistas da série com escritores de Roraima

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Entrevista com o escritor Clotilho Filgueiras

A sexta entrevista da série com escritores de Roraima é com Clotilho Filgueiras. Confira:

Apresentação
Olá, sou Clotilho Filgueiras, roraimense, escritor e advogado.

Nasci no então Território Federal de Roraima em 1974. Minha infância foi marcada por brincadeiras em um grande quintal da minha avó paterna, subindo em árvores, numa casa antiga na rua Coronel Mota, esquina com rua Rocha Leal, com cerquinha de pau rainha.

Iniciei a minha carreira de escritor em 2011, com a publicação do livro Nazareth Filgueiras contou-me sua história, pela Editora Biografia. Essa obra retrata a vida da minha avó paterna, trazendo vários relatos de fatos importantes da cidade de Boa Vista testemunhados por ela própria.

Mas eu queria mesmo era escrever para crianças. Daí, percebi que existia pouca literatura roraimense voltada para o público infantojuvenil. Foi então que, inspirado nos costumes, lendas, culinária e riquezas naturais de Roraima, decidi publicar o primeiro volume de uma série infantojuvenil, o livro Daniel Sapeca e o Diamante Azul do Tepequém.

Como se deu seu contato com a leitura?
Foi em uma pequena biblioteca da Escola Costa e Silva, quando ainda cursava a 2ª série primária. 

Alguém o incentivou? 
Eu tive o privilégio de ter excelentes professores de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental, os quais incentivavam a leitura, a interpretação de textos e redação. E, ressalte-se, todos eram de escolas públicas de Boa Vista, na década de 1980.

Que livros você mais gostou de ler na vida? 
Reinações de Narizinho, Emília no País da Gramática, entres outros de Monteiro Lobato; a Bolsa Amarela e O Sofá Estampado, de Lygia Bojunga; e a inesquecível série Vagalume. Li quase todos.

De que gêneros, escolas literárias e temas você mais gosta? 
Admiro muita a escola modernista, porque foi um marco da valorização da riqueza cultural brasileira.

Procuro discorrer em meus textos sobre o sentimento da criança, crítica social, consciência ambiental e a exaltação à cultura roraimense.

Amo Roraima e, por isso, minhas histórias sempre são ambientadas em diferentes locais dessa linda terra.

Quais são suas influências literárias? Que características desses autores e obras estão presentes na sua produção?
Procuro seguir o estilo de Monteiro Lobato e Lygia Bojunga.

Monteiro Lobato valoriza no Sitio do Picapau Amarelo as lendas e costumes do Brasil. Sua literatura é paradidática, onde se aprende um pouco de Gramática, Matemática e até Geografia, enquanto Lygia Bojunga nos inspira a refletir sobre crítica social e os sentimentos das crianças.

Como você avalia o cenário atual da literatura em Roraima?
Apesar do surgimento de novos talentos e escritores locais tendo destaque em concursos nacionais e internacionais, ainda falta a devida valorização e apoio do Estado e do Município, não somente aos escritores, mas o incentivo ao crescimento da literatura roraimense.

Que trabalhos literários roraimenses você mais admira? 
O seu Aldenor, o Livrinho da Silva, e os poemas de Zezé Maku. Admiro também os poemas da Zany Adairalba.

O que você diria sobre a nova geração de escritores de Roraima?
Não desistam nunca. Escrever é um legado para poucos.

Quais são seus objetivos, como escritor?
Continuar publicando a minha série Daniel Sapeca. O segundo volume já está na editora e o terceiro estou finalizando. Tenho ainda outros projetos em mente para divulgação e apoio aos escritores locais.

Quais os momentos mais marcantes da sua carreira?
O lançamento do volume 1 do Daniel Sapeca em Boa Vista. Tive um apoio caloroso da mídia local.

Mas um fato me marcou profundamente: foi na ocasião de uma tarde de autógrafos e contação de histórias, numa escola municipal do Bonfim. Eu tinha levado alguns livros para distribuir e/ou sortear para os alunos, e, ao final do evento, um menino veio, chorando, me pedindo um livro, porque ele não havia sido sorteado. E, claro, eu o presenteei com um livro. Isso me trouxe a reflexão de que as crianças de escolas públicas ainda clamam por cultura.

Como você caracteriza os seus textos?
São sempre escritos na primeira pessoa do personagem principal, o Daniel Sapeca, um menino de nove anos. Assim, os fatos e emoções são transmitidos sempre sob a perspectiva da criança.

Ao serem ambientados em Roraima, alguns personagens das lendas indígenas interagem com os meus personagens, exaltando certos costumes, a culinária e seus vocabulários típicos, na tentativa de despertar no leitor o conhecimento da cultura, do patrimônio histórico, das riquezas naturais e geografia roraimense.

Com é o seu processo de criação? 
Eu costumo criar um problema a ser resolvido. Daí, eu traço uma espécie de roteiro e cronograma que vai me servir de guia do início ao fim da obra. Mas, no decorrer da escrita, não necessariamente esse roteiro será seguido: quase sempre é alterado por minhas sucessivas revisões.

O que o inspira a escrever? Quais são seus temas mais recorrentes?
O sentimento da criança aos problemas da vida. Assim como um adulto, elas também expressam emoções, críticas e opiniões.

A nossa vasta riqueza cultural roraimense em muito contribui ao universo das minhas histórias.

Fale sobre os livros que você publicou. 
Nazareth Filgueiras contou-me sua história: retrata a biografia de uma das mulheres mais corajosas de Roraima, à frente de seu tempo. Ela testemunhou o primeiro avião a pousar em Boa Vista, conheceu pessoalmente o Marechal Rondon, ajudou a construir a Igreja São Sebastião e fundou o bairro São Francisco. Um de seus filhos foi o primeiro empresário a comercializar as primeiras televisões em Boa Vista. Enfim, é um testemunho da história de Boa Vista, misturada com a saga de uma tradicional família roraimense.

Quais são seus projetos futuros?
Em 2020, pretendo publicar o volume 2 da série Daniel Sapeca, cujo título será Daniel Sapeca e o Patrimônio Histórico de Boa Vista.

Após continuar publicando a série, pretendo ainda criar um espaço em Boa Vista para reunir os escritores, inspirados nos que existem em São Paulo e Buenos Aires.

Há muito ainda a ser explorado pela literatura sobre o universo cultural roraimense. Assim, pretendo de forma lúdica e divertida continuar escrevendo para as nossas crianças.

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www.livrariabiografia.com.br

Outras entrevistas da série com escritores de Roraima

quarta-feira, 27 de março de 2019

Entrevista com o escritor Marcelo Perez

A quinta entrevista da série com escritores de Roraima é com Marcelo Perez.

Graduado em Letras, com habilitação em Literatura, pela Universidade Federal de Roraima (2012), e especialista em Metodologia do Ensino de Artes pela UNINTER – Centro Universitário Internacional (2014), Marcelo Perez, desde 2012, publica o fanzine Receita no Verso, em que é responsável pelas arte, diagramação, organização e distribuição gratuita. 

Tem dois livros publicados: “Ainda se estivesse faltando pedaços”, de poemas (2015) e “O desgaste do tempo nos dentes”, de contos (2017). 

Como se deu seu contato com a leitura?
Meus pais leram contos pra mim. Nós também ouvíamos histórias nos discos. A minha mãe escrevia poemas. Eu também cresci vendo o meu pai lendo revistas e jornais. Depois veio a escola. 

Que livros você mais gostou de ler na vida? De que gêneros, escolas literárias e temas você mais gosta? 
Os livros que me marcaram foram os da coleção Vaga-lume: “A ilha perdida”, “O caso da borboleta Atíria”, “O escaravelho do diabo”, “A turma da rua quinze”, “A serra dos dois meninos”; e “O encontro marcado”, de Fernando Sabino. Adoro contos e poemas. Hoje, por conta da escrita, acabo lendo mais o gênero que estou escrevendo. Não tenho tema preferido. 

Quais são suas influências artísticas?
Adoro Luis Fernando Veríssimo, Fernando Sabino, Caio Fernando Abreu, Ariano Suassuna, Nelson Rodrigues, Mário Bortolotto, Paulo Leminski, Arnaldo Antunes, Edgar Alan Poe, Charles Bukowski, Dostoiévski, Kafka, Tchekhov, J.D. Salinger, Beckett, David Goodis e outros. Esses eu tenho em casa e sempre volto à leitura. Torço pra que minha obra tenha características desses autores. 

Como você avalia o cenário atual da literatura em Roraima?
Muita produção literária, lançamentos de livros por editoras e independentes, saraus, encontros de literatura e coletivos literários. Só posso concluir que estamos diante de um cenário promissor. 

Que trabalhos literários roraimenses você mais admira?
Como publico o fanzine Receita no Verso, leio muitos poemas de diversos poetas. E tem muita gente mandando bem em Roraima! Vale destacar os poemas da Máfia do Verso – Roberto Mibielli, Sony Ferseck, Elimacuxi, Zanny Adairalba e Devair Fiorotti. Também curto muito os poemas de Brendo Vieira Santos, Jaime Brasil, Sâmia Araújo. Na prosa, destaco Meia Pata, de Ricardo Dantas; Índios em busca pela vida, de José Vilela de Moraes e os contos do Livrinho da Silva, do Aldenor Pimentel. 

O que você diria sobre a nova geração de escritores de Roraima? 
Ela traz a diversidade de temas. As paisagens do estado não são mais o foco. Eu me enquadro nessa nova geração. 

Quais são seus objetivos, como escritor? 
Quero publicar e ser lido. 

Quais os momentos mais marcantes da sua carreira? 
Quando lancei meu primeiro livro, “Ainda se estivesse falando pedaços”, de poemas, pela Máfia do verso, em 2015. Ali percebi que já havia um caminho e que não dava mais pra voltar atrás. 

Como você caracteriza os textos que produz? 
Eu escrevo sobre o que vivencio. Considero minha escrita autobiográfica. 

Como é o seu processo de criação? 
Caos total. Com poemas, rascunho palavras, frases, vou perseguindo uma forma e quando percebo tô enfurnado na escrita desse caos. Os contos do meu livro “O desgaste do tempo nos dentes” surgiram a partir da observação de pinturas expressionistas. Assim surgiu a ideia, eram microcontos. Depois, a cada leitura eu avançava um pouco e quando vi minha vida tava ali, dando sentido às histórias. O novo livro de contos vem da observação do universo escolar. As situações, personagens e a minha identificação com eles foram o ponto de partida.

O que o inspira a escrever? Quais são seus temas mais recorrentes? 
Escrevo sobre essa vida transtornada, essa rotina veloz que tenta a todo o momento me confundir. 

Fale sobre os livros que você publicou. 
“Ainda se estivesse faltando pedaços”, publicado pela Máfia do Verso em 2015, foi o que me afirmou a identidade de escritor. Mesmo já reconhecendo a presença constante da escrita no meu cotidiano, o convite feito por outros escritores para a publicação dessa obra foi marcante. Reuni poemas de épocas distintas da minha vida, desde a adolescência até o ano da publicação, em 2015. “O desgaste do tempo nos dentes” foi independente, fruto da minha experiência com a publicação do fanzine Receita no Verso, fiz a capa, a diagramação, parte da revisão. É um livro que tenho muito carinho por ele. 

Como você tem conseguido viabilizar financeiramente a publicação dos seus trabalhos? 
Como disse, o livro de poemas foi publicado pela Máfia do Verso e o de contos, “O desgaste do tempo nos dentes” foi independente. O fanzine Receita no Verso distribuo gratuitamente. 

Quais são seus projetos futuros? 
Tenho dois livros na fase de criação de capa. Um livro de poemas com o título provisório “Me arrebenta por dentro quando penso” e um de contos, com o título provisório “Entre tribos e atritos”. O de contos foi resultado da Bolsa de Criação Literária, projeto aprovado pela FUNARTE em 2012, no qual fui contemplado para criar 20 contos.

Outras entrevistas da série com escritores de Roraima
Receita no Verso, a mais antiga publicação literária periódica em atividade em Roraima
Literatura em Roraima: fazer coletivo
Mesas redondas discutem literatura em Roraima
Sessões coletivas de autógrafos de escritores roraimenses no II Sesc Literatura em Cena

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Entrevista com o escritor Zeca Preto

A quarta entrevista da série com escritores de Roraima é com o filho de dona Neusa, Zeca Preto. 

Apresentação 
Sou um escritor meia boca. Com juízo suficiente pra não escrever um romance... Comecei a escrever um Maria Tiquiri. Tive de rasgar tudo. Totalmente perdido. Adoro escrever o cotidiano. Dar vida às palavras é bom demais. É como inventar palavras: Drácuxi, Paracuxinauara, Roraimeira, entre outras tantas. Na realidade, não sei quem sou como escritor. Apenas escrevo... 

Como se deu seu contato com a escrita? 
O meu contato com a escrita foi com 11 ou 12 anos: fui escolhido pra fazer uma mensagem de duas páginas para Papai Noel. Fiz a carta no Grupo Escolar Dr. Freitas, em Belém do Pará. O texto questionava porque uns tinham bicicletas, patins, carrinhos elétricos que piscavam os faróis e outros tinham um carrinho de lata feito pelos próprios pais. 

Essa questão social sempre foi um questionamento meu... e daí pra frente, escrevia mensagens de aniversário, até de missa de 7 dia de falecidos... 

Que livros você mais gostou de ler na vida? De que gêneros, escolas literárias e temas você mais gosta?
Li poucos livros e gostei imensamente de ‘Eu’, de Augusto dos Anjos. Quando jovem, era viciado em livro de bolso ‘Giselle, a espiã nua que abalou Paris’. Li quase todos. 

Quais são suas influências artísticas? Que características desses autores e obras estão presentes na sua produção?
Acho que não tenho. Mas sou apaixonado por Manoel Bandeira e um pouquinho por Carlos Drummond de Andrade. 

Como você avalia o cenário atual da literatura em Roraima? 
Vejo com otimismo. Tem uma turma maravilhosa. E o que me deixa mais feliz é ver mulheres poetas. Fico Feliz! 

Que trabalhos literários roraimenses você mais admira? 
Eliakin Rufino, Zanny Adairalba, Ricardo Dantas, Edgar Borges. Os trabalhos desses escritores são bons e admiro... 

O que você diria para a nova geração de escritores? 
Claro, se preocupem com as pequenas concordâncias. E, por favor, deem vida e imagem às palavras... 

Quais são seus objetivos, como escritor?
É passar emoção, se possível, fazer chorar através da escrita. 

Quais os momentos mais marcantes da sua carreira?
Como escritor, foi no lançamento do meu Songbook na sede da União Operária, onde pude ver e ouvir murmúrios de festas que ali aconteciam. Foi louco! Escrevi um poema... 

Como você caracteriza o texto que produz?
Verdadeiro, no maior sentido da mentira. 

Com é o seu processo de criação? 
Como escritor, chega uma vontade imensa de escrever. Como compositor, também faço por encomenda, sem inspiração... 

O que o inspira a escrever? Quais são seus temas mais recorrentes? 
O amor no seu mais alto grau da existência... 

Fale sobre os livros que você publicou. 
Como escritor, escrevi os livros: 

Em 1987, ‘Beiral’. Foi lançado no próprio ambiente, no Bar do Batuta. Consegui levar ao Beiral secretários de Estados, deputados federais e outras autoridades. Foi uma festa maravilhosa com cachaça, cerveja, cigarros e poesia... 

Em 2008, escrevi o livro ‘Beiral II edição’ (obra revista e ampliada), com fotos do fotógrafo Jorge Macedo. 

Em 2013, escrevi o livro ‘Poemas Acorrentados’, com as belas ilustrações do artista plástico Augusto Cardoso. Para ler e baixar 'Poemas Acorrentados', clique aqui.
Em 2014, escrevi o livro ‘Traços e Amores’, com ilustrações de Amazoner Okaba. 

Em 2014, foi feito pela UFRR, através da Fundação Ajuri, o meu Songbook ‘Músicas Vivas de Zeca Preto’. 

A música me deixa mais eufórico por causa do som. Talvez, por isso, não seja tão atuante na literatura propriamente dita. 

Quais são seus projetos futuros? 
Lançar nas plataformas Web. 

Caso queira acrescentar algo a mais que não foi perguntado, fique à vontade. 
Agradecer e dizer que você é um grande escritor.

Site oficial

Redes sociais de Zeca Preto

Outras entrevistas da série com escritores de Roraima
E-book: a literatura de Roraima na era digital
Mesas redondas discutem literatura em Roraima

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Entrevista com o escritor João Euclides Junges

A terceira entrevista da série com escritores de Roraima é com João Euclides Junges, o Guri de Selbach.


Apresentação 

Nasci em Três Passos (RS), em 5 de fevereiro de 1955, filho de Emílio Alberto Junges e Ana Hilária Junges. Com três meses de vida, meus pais se mudaram, fixando residência na vila de Selbach. Foi como um vento, não deu tempo de pensar. O vento só tem tempo de seguir e de rezar a própria prece. Ingressei no mundo dos livros guiado pelas mãos divinas. O Deus de minha fé me salvou de fazer uma besteira, me inserindo no mundo fantástico dos livros. 


Como se deu seu contato com a leitura? 

Peguei gosto pela leitura nos meus tempos de piazote. Minha leitura preferida na época eram os livros de bolso de faroeste. 


Que livros você mais gostou de ler na vida? Que gêneros, escolas literárias e temas mais o agradam? 

Adoro livros de histórias baseadas em fatos reais. E o meu livro preferido, seguindo essa linha, é: Um Gato de rua chamado Bob. Autor: James Bowen. Outro: Papillon – O homem que fugiu do inferno. 


Que características desses autores e obras estão presentes na sua produção? 

Sigo a mesma linha nos meus trabalhos literários, ou seja, histórias baseadas em fatos reais. 


Quais são suas influências artísticas? 

Minha influência artística veio através do nosso Pai Celestial. A noite em um sonho ELE me visitou e disse: “Escreve um livro guri” 


Como você avalia o cenário atual da literatura em Roraima? 

Caminhos difíceis para nós, escritores roraimenses. As livrarias estão fechando as portas e os políticos roraimenses não fazem nada pela cultura. 


Que trabalhos literários roraimenses você mais admira? 

Os trabalhos literários do Eroquês Velho e do Bruno Garmatz, dois gênios da literatura roraimenses. 


O que você diria sobre a nova geração de escritores de Roraima? 

Todos procurando o seu espaço. 


Quais são seus objetivos, como escritor? 

Meus livros estão entre os mais lidos em Roraima. Depois das eleições, vou trabalhar meus livros em Manaus. 


Quais os momentos mais marcantes da sua carreira? 

Quando uma criança de 13 anos, que estudava na Escola Penha Brasil, pegou o microfone, após o término de mais uma palestra, e, olhando bem dentro dos meus olhos, disse: “O senhor palestra com o coração. O senhor emociona a gente”. 


Como você caracteriza os textos que produz? 

Autobiográficos. 


Com é o seu processo de criação? 

Intuição e imaginação, aliado a muita pesquisa. 


O que o inspira a escrever? Quais são seus temas mais recorrentes? 

A lua e o vento. Pertenço à classe dos andejos e quem sempre me leva embora é o “Wind”. 


Fale sobre os livros que você publicou. 

AVENTURAS DE UM DESCONHECIDO: São causos que levam o leitor a pensar nas inconsequentes travessuras de um menino de interior. O livro provoca a falsa impressão de que a pretensão do autor é mostrar o lado cômico de uma história e de uma época. Parece ser exatamente assim, mas não é. O que verdadeiramente está escrito não são as enormes gargalhadas que ecoaram nas lonjuras do passado. 

CAMINHANDO SOBRE OS SONHOS: É mais um sonho realizado de dois escritores gaúchos, que o destino reuniu em Roraima. Embora pareça ser a continuação do livro Aventuras de um desconhecido, diferencia-se apenas pela maneira diferente de contar velhas e verdadeiras histórias. As brincadeiras dos meninos interioranos amadureceram no contexto de cada história. Os escritores também amadureceram com a trajetória dos livros. 

GRITO DE ALERTA: Tratava-se de uma bela e desafiadora proposta literária. Porém, com uma temática definida, abrangente, de domínio público e trazendo dentro dela um forte apelo social. É diferente de contar histórias para as pessoas rirem e acharem engraçado, do que descrever as lágrimas e os sofrimentos dos que, em silêncio e solitários, choram. É diferente escrever sobre um tema amplamente debatido pela comunidade científica e por pessoas responsáveis sobre as ações sociais e humanitárias que são empreendidas constantemente. Todas as camadas sociais foram contempladas. Também nos prestigiaram pessoas de todas as idades e de todos os segmentos étnicos. Até porque a doença não discrimina as pessoas que se encontram em seu campo de atuação. As pessoas se permitiram, e nos permitiram, falar abertamente sobre as maneiras em que a depressão se manifestou nelas. 


Quais são seus projetos futuros? 

Já em desenvolvimento meu novo livro: A arte de vender livros e suas histórias. Lançamento previsto para o mês de novembro do corrente ano. 


Caso queira acrescentar algo a mais que não foi perguntado, fique à vontade. 

Os livros quase sempre materializam o abstrato e solitário sonho de um escritor. O escritor é um sonhador que sonha sozinho. Os mais renomados escritores, de qualquer época e de qualquer tema literário, um dia, também sonharam escrever o primeiro livro. Os livros encerram uma história de vivências que nos remete aos tempos de outra época e ao caminhar dela. 


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Conheça outros escritores entrevistados por esta série

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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Entrevista com o escritor George Farias

George Farias é o convidado da segunda entrevista da série com escritores de Roraima. Ele começou a produzir literatura por pensar que a poesia seria um veículo para se manifestar, se comunicar e mostrar suas angústias e anseios. Nasceu no Ceará em 1963 e vive em Roraima desde 1989, onde voltou a estudar e resolveu morar. 

Como se deu seu contato com a leitura? 
A literatura me envolveu desde muito cedo, pois eu admirava quem escrevia e como escrevia. 

Que livros você mais gostou de ler na vida? De que gêneros, escolas literárias e temas você mais gosta? 
O livro que mais me chamou a atenção foi ‘Eram os deuses astronautas’, [de Erich Von Daniken], depois busquei outros e outros e outros, sem me preocupar com o gênero. 

Quais são suas influências artísticas? 
Minha maior influência é meu irmão, [Cacá Farias], que me incentivou à leitura e por ser um grande compositor. 

Que características desse autor estão presentes na sua produção? 
O fato de ser poesia. 

Como você avalia o cenário atual da literatura em Roraima? 
Minha visão diz que a literatura em Roraima está mais ativa, porém segmentada, visto que alguns escritores se acham. 

Que trabalhos literários roraimenses você mais admira? 
Admiro alguns trabalhos, mas mais a poesia. 

O que você diria sobre a nova geração de escritores de Roraima? 
Vejo em crescimento. 

Quais são seus objetivos, como escritor? 
Que meu trabalho seja lido, principalmente nas escolas. 

Quais os momentos mais marcantes da sua carreira? 
Mais marcante foi no dia em que vi meus livros sendo objetos de estudo de alunos do Mestrado da UERR. 

Como você caracteriza os textos que produz? 
Poema. 

Com é o seu processo de criação? 
Lendo e com muita calma, para que não seja qualquer nota. 

O que o inspira a escrever? Quais são seus temas mais recorrentes? 
O mar é meu principal tema, porém falo sobre muitos outros temas. 

O que você pode falar sobre os livros que você publicou? 
Publiquei dois livros e tenho um terceiro para publicar. Poemas que contam minha experiência em Roraima, porém sempre com um pé no mar. 

Quais são seus projetos futuros? 
Lançar meu terceiro livro e escrever mais. 

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terça-feira, 21 de agosto de 2018

Entrevista com a escritora Loretta Emiri

A partir de hoje, vamos fazer uma série de entrevistas com escritores e ilustradores de Roraima, o que inclui nascidos no Estado e aqueles que, em algum momento na vida, fizeram, das terras mais ao norte do Brasil, sua morada. 

Conheça Loretta Emiri, italiana de nascença, apelidada pelos yanomami de Horeto Mỳsi, que quer dizer algo como Andorinha Da-terra-de-cima. 


Apresentação 

Quando pequena, já dizia que queria me tornar escritora e que desejava trabalhar no chamado terceiro mundo. Ao alcançar a idade certa para fazer escolhas de vida, resolvi deixar a Itália e me mudar para a Amazônia brasileira, tendo certeza de que a convivência com os indígenas sugeriria assuntos importantes e originais que, num segundo momento, poderiam ser tratados pela escrita e transformados em literatura. Realizei meus sonhos infantis. Durante 18 anos, trabalhei com os índios brasileiros na defesa de seus direitos. Por mais de quatro anos morei no mato, vivendo entre os yanomami os anos mais felizes da minha vida. A reelaboração literária da privilegiada experiência feita me permite afirmar, hoje em dia, que estou dando continuidade à própria experiência. Minha escrita é a serviço da dignidade e dos direitos dos povos indígenas brasileiros, sem deixar de ser uma arte que melhora e enriquece minha própria vida. 


Como se deu seu contato com a leitura? Alguém a incentivou? 

Minha avó paterna, que era professora, e meu avô materno estavam sempre lendo alguma coisa. O primeiro livro de poemas que chegou às minhas mãos pertencia a esse meu tenro vovô. Desde menina, se alguém queria me fazer presentes, eu pedia que fossem livros. 


Quais são suas influências artísticas na escrita literária? Que características desses autores e obras estão presentes na sua produção? 

Autores come Grazia Deledda, Giovanni Verga, Luigi Pirandello, Cesare Pavese, Primo Levi, Beppe Fenoglio, Edgar Allan Poe, Hans Ruesch têm alimentado minha paixão pela leitura e pela escrita. Nos meus trabalhos, dou ênfase aos sentimentos, pensamentos, emoções dos personagens. Procuro ser muito sintética, direta. Utilizo até termos pouco usados, mas que remetem à minha experiência e bagagem cultural, pois é uma maneira de manter rica uma língua e manter vivos momentos específicos de histórias pessoais e da história em geral. 


Que trabalhos literários roraimenses você mais admira? 

Admiro muito o escritor Cristino Wapichana. Seus livros, suas performances, sua incansável atividade visam sensibilizar a opinião pública, especialmente as crianças, sobre valores e direitos dos povos indígenas. Ele já ganhou prêmios importantes, participou de feiras de livros no exterior, já se viu traduzido em outra língua

Uma obra que está fazendo a volta do mundo é aquela escrita pelo xamã yanomami Davi Kopenawa, coadjuvada pelo etnólogo Bruce Albert. Gravada em língua yanomami, impressa em francês, inglês, português e italiano, a obra, cujo título em português é ‘A queda do céu’, é uma verdadeira enciclopédia contendo informações sobre, vida, cultura, língua, mitologia, história, agressões, mortes e vitórias desse povo. 

Também admiro Zezé Maku (Miranda de Aquino) pela preocupação com a preservação da natureza; amos os poetas Eliakin Rufino e Beta Cruz (Roberta S. Cruz). 


Quais são seus objetivos, como escritora? 

Um amigo escreveu que os meus contos são de manutenção do espírito. Quando escrevo, é isso mesmo que acontece: faço higiene mental, reorganizo o caos interior, dou manutenção ao espírito. Naturalmente espero que essa atitude beneficie os leitores também. Além disso, com a escrita exprimo carinho e solidariedade para com os índios brasileiros, pois eles deram sentido à minha vida.  


Quais os momentos mais marcantes da sua carreira? 

Por ser mulher, sozinha, estrangeira trabalhando com os índios, fui marginalizada, discriminada, caluniada. Escrever poemas muito me ajudou a lidar com a solidão. Adolescente, tinha escrito poemas em italiano. Quando eles brotaram em português foi emocionante, gratificante, um momento muito marcante. A apresentação do meu livro ‘A passo di tartaruga – Storie di una latino-americana per scelta’, em 2017 entrou na programação oficial do Salão Internacional do Livro de Turim. Em janeiro de 2018, uma emissora nacional italiana pôs no ar uma entrevista em que fiz questão de contestar os estereótipos que circulam sobre os índios. Em maio de 2018, me foi conferido o Prêmio Especial à Carreira, durante a segunda edição do ‘Prêmio Nacional Novella Torregiani di Letteratura e Arti Figurative’, pela defesa dos direitos dos índios brasileiros. 


Como você caracteriza os textos que produz? 

Como já disse: meus escritos fornecem manutenção ao espírito, meu e dos leitores, espero. Dizer que são contos, e autobiográficos, nada acrescenta: o que eu considero estar escrevendo é simplesmente narrativa. 


Como é o seu processo de criação? 

Uma ideia, uma lembrança, um conceito, se instala na minha cabeça. Aí não tenho mais paz até elaborar o embrião pela escrita e transformá-lo em literatura. Antes de começar a escrever, o título já está prontinho, bem definido na minha cabeça. 


O que a inspira a escrever? Quais são seus temas mais recorrentes? 

A privilegiada experiência feita entre os índios brasileiros é à base da minha escrita. Idas e vindas entre passado e presente, entre Europa e América Latina, entre primeiro, terceiro e mundo dito primitivo, fazem com que atemporal seja o tempo nos meus textos. Gosto de mostrar como as mesmas situações são resolvidas pelos povos indígenas, considerados inferiores, ou pelos ocidentais que se consideram superiores, sem sê-los. Há apenas culturas, línguas e habitat diferentes; mais diversificados e preservados eles são, melhores condições de vida têm os homens. 


Que livros literários você já publicou? 

Poemas meus foram incluídos nas antologias ‘Poetas brasileiros de hoje – 1986’ (Shogun, 1986); ‘Antologia de poesias’ (Edicon, 1988); ‘Sociedade dos poetas vivos, v. 3’ (Blocos, 1993); ‘Expressões poéticas’ (SESC, 1993). Em 1992, pela Edicon de São Paulo publiquei o livro de poemas ‘Mulher entre três culturas – Ítalo-brasileira ‘educada’ pelos Yanomami’. 

Em italiano, escrevi os livros de contos ‘Amazzonia portatile’ (Manni Editore, 2003); ‘Quando le amazzoni diventano nonne’ (CPI/RR, 2011); ‘Amazzone in tempo reale’ (Andrea Livi Editore, 2013) (Prêmio Especial para Ensaios do “Premio Franz Kafka Italia – 2013”); ‘A passo di tartaruga – Storie di una latinoamericana per scelta’ (Collana Incroci, 2016). 


Quais são seus projetos futuros? 

Espero continuar escrevendo coisas que falem do valor da diversidade cultural, de diretos individuais e coletivos, dos povos indígenas brasileiros. Espero fazer isso até o último dia da minha vida. 


Onde suas produções podem ser encontradas? 

Textos meus aparecem em várias revistas, entra as quais: ‘I giorni e le notti’, ‘El ghibli’, ‘La macchina sognante’, ‘Fili d’aquilone’, ‘Sagarana’, ‘Euterpe’, ‘Pressenza’, ‘La bottega del Barbieri’. 







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